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UM HOMEM FELIZ

Ao chegar aos 66 anos, podem estar certos, ainda não atinei para a idade e condição de idoso, pois tenho boa disposição física, faço longas caminhadas e as vezes, quando sobra um tempo, me arrisco a jogar futebol, um prazer que carrego desde menino, das margens do Rio Iapó, na querida e tradicional cidade de Castro, que um dia foi capital do Estado.

FUTEBOL

Foi lá que aprendi a gostar do mais popular dos nossos esportes e com meus 8, 9 anos ia ao Estádio da Ronda para torcer pelo Caramuru, então participante da Liga Regional de Futebol, de Ponta Grossa. Até hoje lembro da formação básica do “Sapo do Iapó” (como era chamado o time castrense): Negrinho, Miga e Chatz. Pedrinho Menarim, Neno e Gildo. Zepinho, Antoninho Fanchin, Moreno, Laurinho e Raino. Antes tinham sido goleiros os irmãos Hermínio e Antoninho Remonato, este um dos melhores arqueiros que vi atuar. Era fantástico. Hermínio, como militar, foi para o Rio de Janeiro, onde jogou basquetebol pelo Flamengo. Era alto e de excelente presença física. Antoninho veio para o Ferroviário e depois em sua tumultuada carreira jogou em várias equipes. Hermínio, ao retornar para Castro, passou a jogar como ponta direita e alfo direito, como chamavam naquela época. Não quis mais ser goleiro.

OUTROS

Ainda no Caramuru, daqueles tempos, atuavam Paraná, uma espécie de coringa, pois jogava como goleiro e também em outras posições, Chepa, Macuco, Candinho, Mario Biasio, Cezinha, Zepinho e Antoninho Fanchin vinham de Piraí do Sul e os dois primeiros eram venerados pela torcida por serem artilheiros. Antoninho também era um jogador de qualidade. O craque do time era Laurinho, mas Gildo era destaque pela raça. Aliás, foi em função dele, Gildo, que me tornei torcedor do Ferroviário. Em 52 ele veio jogar pelo Ferroviário e então passei a torcer pelo clube da rede.

RÁDIO E JOGO

Ouvia os programas esportivos da B2, de Curitiba, e da PRJ-2, de Ponta Grossa, para saber de Gildo, no Ferroviário. E, em 53, ao vir morar em Curitiba, me afirmei torcedor do “Boca”, já que o primeiro jogo que fui assistir com meu tio Javert foi Ferroviário x Cambaraense, quando o Ferroviário, ao vencer por 2 a 1, conseguiu o título estadual de Campeão do Centenário.

INDEPENDÊNCIA

Naquele ano o Estado do Paraná completava cem anos de emancipação política de São Paulo. O Estádio Durival Brito e Silva estava lotado e eu, menino de Siqueira Campos (distrito de Barbosas), com passagem por Castro, assistia a tudo emocionado. Vi uma festa jamais esquecida quando o jogo terminou. O gramado foi invadido e os jogadores festejados. Nunca mais esquecerei a escalação do Ferroviário naquele jogo, que foi: Robertinho, Tico e Marcelino, Lalo, Tocafundo e Alceu. Maurílio, Isauldo, Juarez, Afinho e China. O técnico, João Lima e o presidente, Armando Prince.

AMIGOS

Com o passar dos anos vários destes campeões se tornaram meus amigos, inclusive o folclórico técnico, João Lima. Fui torcedor ferrenho do Clube Atlético Ferroviário e foi com tristeza que o vi desaparecer para surgir o Colorado. Por mim o Ferroviário existiria até hoje. Gildo voltou para o Caramuru e eu fiquei em Curitiba, onde estou até hoje. São 56 anos nesta cidade que amo com todas as forças, pois aqui consegui, senão tudo, mas uma grande parte do que almejei e por isto afirmo ser feliz.

GOVERNADOR E AMADOR

Naquele mesmo ano do Centenário, conheci o governador do Estado, Bento Munhoz da Rocha Neto e, apaixonado por futebol também, conheci o Estádio Capitão Manoel Aranha, o campo do Poty, onde vi o Botafogo de Caninin, Petcha e Lantsman, Pedrinho, Campo Magro e Bonde. Juve, Nereu, Florindo, Mario e Américo, ser campeão do Centenário do futebol amador, sob o comando do técnico Otavio de Castro, o Vico. O presidente era Navarro Mansur. Também vários destes jogadores, bem como o técnico e o presidente se tornaram meus amigos. Ainda hoje às vezes encontro Navarro Mansur e o Florindo. Houve tempo que encontrava o Mario e o Bonde em órgãos da Prefeitura de Curitiba, onde eram funcionários. Com o Juve convivemos no futebol profissional quando foi técnico do Britania e Ferroviário. Hoje é morador de União da Vitória, onde está a muitos anos.

ESTUDO E SONHO

Neste ano, já estava matriculado no Grupo Escolar Professor Cleto da Silva, onde completei o ensino fundamental. Segui estudando e sempre sonhando em ser radialista, desejo acalentado ainda em Castro, onde vi surgir a ZYS 21 - Rádio Castro Ltda, onde um dos primeiros locutores foi Dacio Leonel de Quadros, que mais tarde tive o prazer em ser colega, não só como radialista e também com deputado estadual. Lembro que quando dos jogos do Caramuru ficava próximo à cabine de rádio para observar os locutores.

Em muitos jogos estavam presentes emissoras de Ponta Grossa, especialmente a PRJ-2, cujo locutor principal era Barros Junior, outro que tive a honra em ter como colega de profissão e amigo. Era um grande radialista e deixou sua história marcada em Ponta Grossa. Ao volta para casa “montava a minha rádio” e passava a imitar os radialistas. Ficava fechado horas no quarto me passando por locutor.

SALÃO

Em Curitiba, ao ir com meu irmão Luiz Fernando assistir aos jogos de futebol de salão no ginásio do Atlético Paranaense, nos idos de 55, conheci Raul Mazza, Osmar de Queiroz, Martins Rebelato e outros da Rádio Marumbi, a então emissora dos esportes do Paraná. A Marumbi transmitia tudo em matéria de esportes, inclusive jogos do futebol suburbano.

Lembro-me que em 55, na decisão entre Vasco da Gama e Poty, no Estádio Loprete Frega, no Taboão, Willy Gonzer, que depois se tornou o melhor dos narradores esportivos do Paraná, transmitiu o jogo da arquibancada, em meio aos torcedores, já que não havia cabine de rádio. Acompanhei a partida ao lado de Willy, o Alemão, com quem tive o prazer em trabalhar na rádio Clube Paranaense - B2, onde foi chefe da equipe esportiva durante muitos anos. Depois de muito sucesso no Rio Grande do Sul, Willy se transferiu para Belo Horizonte, onde está a muitos anos participando de transmissões pela Rádio Itatiaia e de programas esportivos de televisão. O Poty, na partida decisiva, jogou com Pedrinho (Pedro Washington de Almeida, hoje importante jornalista político e escritor), Valmir e Danilo Tozzo, Durval, Geraldo e Nino, Delbio, Cláudio, Lineu, Nhunho e Denizar. Durante o campeonato ainda foram destaques: Irone Santos e Valdemar.

PRIMEIRA OPORTUNIDADE

No propósito de ser radialista, me aproximava também dos locutores de alto falantes e foi no Circo Irmãos Queirolo, então armado na Rua Saldanha Marinho com a Rua Visconde de Nácar, onde hoje tem um Largo e o início da Travessa Fernando Moreira e o Edifício Itália, onde meus amigos Edson Rulk Silva, que se tornou um dos melhores narradores de corridas de cavalos do Brasil e Ernani Santos Lima, que se tornou operador de som da Rádio Educativa, disseram ao Lourival Pereira e ao Harris Junior, que eu gostaria de ser locutor e me foi dada a chance de anunciar os espetáculos. Tomei gosto e todas as noites estava no circo como locutor da RCQ-1, Rádio Circo Queirolo. Mas, antes havia sido vendedor de refrescos, pipocas e outras guloseimas para entrar no circo de graça.

POLÍTICA

Tornei-me propagandista de rua com o serviço de altos falantes em carro volante e fui convidado a participar do Alto Falantes Paraná, do Pedro Ravanello, das Mercês e do Spam Som de Curitiba, de Sebastião Amorim, hoje com 99 anos e do Nico. Nos altos falantes me envolvi em política e participei de campanhas de Jorge Nassar, Maia Neto, Nelson Maculan e outros. Aroldi Armanstrong, um taxista, tinha um programa na Rádio Tingui, chamado a Voz do Motorista e me convidou a participar do mesmo. Foi o primeiro programa de rádio em que participei.

CIRCO E VIAGEM

Aos poucos fui me tornando conhecido como locutor de alto falante e eis que chega a Curitiba um grande circo e contrata o Serviço de Alto Falantes Paraná para fazer a sua divulgação. Fui indicado para o trabalho e o pessoal do circo gostou e me contratou para apresentar os espetáculos, já que seu locutor havia se transferido para outra companhia. Ao completar a temporada o proprietário me chamou e me fez a proposta de acompanhar o circo, que estava indo para Santa Catarina.

Garoto, 13 anos, cheio de sonhos e diante do dinheiro oferecido fiquei empolgado. Mesmo a contragosto dos meus pais e também da minha irmã, embarquei na aventura. Após alguns meses as saudades apertaram e logo após receber o pagamento, numa segunda feira, comprei a passagem e retornei para casa. Estava em Rio Negrinho quando isto aconteceu.

Inclusive, ao dar entrevista na rádio local para divulgar o circo, fui convidado a trabalhar na emissora, mas estava mesmo a fim de voltar e assim o fiz. A rádio de Rio Negrinho foi a segunda emissora em que falei.

VOLTA E OPORTUNIDADE

Cheguei em casa de surpresa e fui recebido por mamãe com uma tremenda festa. Logo telefonou para papai e para a Nice avisando que eu estava de volta. À noite quando papai e Nice chegaram do trabalho foi outra festa e senti então que ali era o meu verdadeiro lugar. Dias depois papai me chamou e disse: “Já que você quer ser radialista, conversei com o Moacir Amaral, meu amigo de Ponta Grossa, diretor da B2 e pedi para ele lhe dar uma oportunidade e ele pediu que você o procurasse”.

Todo entusiasmado, mas tímido como sempre, vacilei e depois fui até a Barão do rio Branco e Seu Moacir me atendeu muito bem. Falou-me: “Teu pai disse que gosta muito de futebol, então vou apresentá-lo ao pessoal do esporte que está chegando daqui a pouco”. Pediu que aguardasse e pouco depois chegou um senhor de óculos, risonho e brincalhão, cumprimentando a todos.

Seu Moacir o chamou e lhe falou: “Machado, este rapaz é filho de um amigo de infância e gostaria que lhe desse uma oportunidade para teste”. O Machado me olhou de cima abaixo e disse: “Você é um menino e aqui é a B2, a grande rádio do Paraná, mas se o homem está mandando vai fazer o teste”. Em seguida chamou um companheiro e me disse ser Alfredo Otto e que ele faria o teste comigo. O Alfredo me convidou e fomos para uma sala, onde estava um gravador grande e o Alfredo mandou que lesse um script de programa esportivo e o fiz conforme suas orientações: primeiro em velocidade, depois mais devagar e depois frase a frase com ele. Em seguida pediu que fizesse um comentário imaginário em torno de um jogo de futebol e me lembrei do Ferroviário x Cambaraense, o primeiro jogo que assisti em Curitiba, quando o Ferroviário foi o campeão do Centenário, o jogo que até hoje não esqueço, e falei em torno do mesmo. Alfredo disse que estava bom e que deveríamos esperar a volta do Machado, que estava apresentando o programa de esportes.

CONCRETIZAÇÃO

O sonho alimentado desde os 8 anos, aos 14 para 15, começava a se tornar realidade. Machado Neto, então diretor da equipe esportiva, retornou do programa com o mesmo jeito alegre e risonho e foi logo perguntando ao Alfredo: “E daí, como foi o guri?”. Alfredo pensou um pouco, deu uma pausa e isto me angustiou, mas logo me acalmou dizendo: “Foi bem, ele tem pique”. E então o diretor pediu para ouvir. Acompanhou atento e sempre olhando para mim, com ar gozador, não demorou em dizer: “Pode desligar”. Em seguida, olhou sério e perguntou: “O que você faz pela manhã?”. Respondi que trabalhava no Utrabo Fotografias, mas estava à disposição se precisasse de alguma coisa. Ele chamou um rapaz alto, magro e me disse ser Boris Musialowski e que eu deveria procurá-lo na manhã seguinte, às 11h30, para fazer com ele o programa “Sua Excelência, o Esporte”. Fui para casa correndo e contei a nova para meus pais, que estavam jantando e eles ficaram felizes.

EXPECTATIVA

Não dormi direito aquela noite e na manhã seguinte fui trabalhar e não via as horas passarem para ir para a rádio. Lá pelas 10 horas falei com o Humberto, dizendo que precisava sair um pouco antes porque ia participar de um programa na B2, mesmo desconfiado me liberou. O Boris me recebeu com atenção e me explicou como funcionava o programa e depois de abri-lo deixou que eu o apresentasse em parte. Era um programa de 15 minutos e ao término do mesmo me chamaram ao telefone e ao atender constatei ser o Machado, pedindo que estivesse às 18 horas na rádio para conversarmos. Agradeci e confirmei a presença.

NOVA E PROGRAMAS

É bom frisar que quando retornei de minha aventura circense voltei a trabalhar no Utrabo Fotografias, no Edifício Brasilino Moura, na Rua Cândido Lopes, - 231, que havia sido o meu primeiro emprego. Ao retornar fui procurar o Humberto e ele me acolheu, me dando nova oportunidade. Às 18 horas estava na B2 e Machado pediu que acompanhasse a apresentação do programa “Rádio Esportes Alka Seltzer”, com Martins Rebelato e Osmar de Queiroz. Fiquei na técnica, ao lado do operador de som Leônidas Santi, acompanhando tudo. Terminado o programa, Machado me perguntou: “Você tem coragem de apresentar este programa?” E respondi que sim e então ele disse: “Por enquanto é melhor você ficar naquele mais curto, perto das 12 horas. Só que amanhã você vai fazer sozinho, porque o Boris entrou em férias. Você acha que tem condições?” E com timidez respondi que sim e então ele disse: “Tem que falar prá fora e eu sei que voz você tem”. Dia seguinte estava eu apresentando “Sua Excelência, o Esporte” e, em novo telefonema, Machado pediu que estivesse no final da tarde novamente na rádio e para minha surpresa disse que apresentaria o programa das 18h30 ao lado de Alfredo Otto.

DINHEIRO

Terminado o programa disse que tinha ido bem nos dois programas, mas que não tinha verba no departamento para me oferecer um salário e que iria me arrumar uma gratificação para cobrir as férias do Boris e do Martins Rebelato. Empolgado, parecia que estava sonhando, disse: “Sim, Senhor” e fui repreendido em tom firme: “Aqui não tem senhor, eu sou o Machado”. Fiquei assustado e ele perguntou se estava tudo certo e respondi que sim. Bateu-me nas costas e riu. Para mim um prêmio.

INÍCIO E SALÁRIO

Começava a minha carreira de radialista. Dias depois Machado me escalou para participar do plantão esportivo, que era comandado pelo Alfredo Otto. Umas três semanas depois que estava na rádio, um dia o funcionário da recepção pediu que eu me apresentasse para Dona Ione, a chefe de pessoal. Fui para sua sala e ela perguntou: “Você é o José Domingos?” E respondi “Sim, Senhora”. Ela continuou: “Eu imaginava que fosse um senhor pelo tipo de voz e você é um menino ainda!” E em seguida disse ter recebido autorização de me contratar e que precisava apresentar a carteira profissional e como não tinha, fui fazê-la, bem como outros documentos. Assim, o meu primeiro emprego como registrado foi na B2, como locutor esportivo. No Utrabo não era registrado para poder ganhar um pouco mais.

ÓTIMO

Ao receber o primeiro salário, não acreditei e fiquei num entusiasmo só. Dava quase cinco vezes mais do que eu ganhava. Passados alguns meses uma nova experiência, Machado Neto me escalou para acompanhá-lo no jogo entre Água Verde e Seleto, no Estádio Orestes Thá e me colocou para transmitir alguns minutos do jogo. A partir daí passei a fazer postos de transmissões em jogos no interior. Viajava quase todos os finais de semana e aos poucos ia me soltando para narrar.

PARCEIRO

Tornei-me muito amigo do Alfredo e ele era também noticiarista e apresentador do Grande Jornal B2. Um dia me falou: “Zé Domingos, vai ser contratado mais um noticiarista e eu te indiquei para o Moacir Pereira, diretor do radio jornalismo, você topa?” Não deu outra, dias depois estava apresentando também noticiários e o jornal falado das 22h30 à meia noite e ganhando mais um salário. Estava com 15 anos, em 58, e trabalhando na grande B2, dos programas de auditório, onde se apresentavam cantores, cantoras, orquestras, conjuntos, do rádio teatro, dos programas humorísticos, das transmissões esportivas e eu em meio àquele mundo que me parecia fantástico. A felicidade era total.

EXÉRCITO

Aos 18 anos fui prestar serviço militar na 5ª Companhia de Comunicações, no Portão, e mesmo assim não me afastei da rádio e consegui contornar tudo, trabalhando só a noite. Quando estava de plantão no quartel o Alfredo me “quebrava o galho”. No quartel voltei a jogar futebol e o sargento Miranda, este mesmo que foi presidente do Paraná Clube, me levou para o Novo Mundo, do nosso futebol amador, onde fiquei por aproximadamente 8 meses. Futebol amador, que todos sabem ser admirador e que acompanho até hoje. Terminado meu tempo de serviço militar voltei de corpo e alma para a Rádio Clube Paranaense.

DUBLAGEM

Numa 4ª feira, em que não tinha expediente à tarde no quartel, logo após o almoço, fui para a rádio e fui informado que deveria fazer plantão à noite, quando haveria a transmissão do jogo entre as seleções de Santa Catarina e Paraná, em Florianópolis. Mario Vendramel narrava o jogo quando houve pane na transmissão, imediatamente eu sintonizo a Rádio Guarujá, de Florianópolis, e passei a dublar a transmissão, imaginando que seria logo restabelecido o contato com o Mario e isto não aconteceu. Assim, transmiti a partida até o seu final.

VITÓRIA

A seleção paranaense ganhou por 2 a 1. No dia seguinte, ao comparecer no quartel, fui chamado à sala do comando e lá o tenente Ivo chamou-me a atenção por ter viajado sem autorização. Expliquei que não tinha saído de Curitiba e que eu dublara a Emissora Catarinense. No que ele não acreditou, dizendo que a transmissão estava muito boa e só lamentou a derrota, por ser catarinense. Com o passar dos anos e a saída do exército, Ivo tornou-se grande amigo. No rádio, aplausos para a presença de espírito e atuação.

FORA DE CURITIBA

Surgiram propostas para sair de Curitiba e houve uma irrecusável da Rádio Nereu Ramos, de Blumenau, e fui trabalhar lá. Quem me indicou foi o Alfredo Otto, que tinha ido para lá pouco antes. Trabalhei alguns meses na rádio dirigida por Evilazio Vieira, o Lazinho, que havia sido jogador do Palestra Itália, em Curitiba. Era uma rádio avançada, com equipamentos modernos, programas de alto nível e tive bons momentos por lá.

FAMÍLIA

Mas, o apelo dos pais e da irmã me trouxeram de volta à Curitiba. Aqui chegando tive uma passagem pela Rádio Tingui, para onde fui indicado pelo Fuad Kalil e logo fui para a Rádio Colombo, onde era diretor geral o Sergio Fraga, com quem trabalhara na B2, inclusive participando de seus programas de auditório, como também participei dos programas do Mario Vendramel e o diretor de esportes era justamente ele, Machado Neto e assim voltamos a trabalhar juntos. Não demorou muito para o Fraga, que continuava na B2, me levar de volta para aquela casa e fiquei trabalhando nas duas.

IMPRENSA

A esta altura já começava a trabalhar também em jornal, fazendo reportagem policial para o Correio do Paraná, diante indicação do companheiro Hamilton Correia, que trabalhava comigo na B2. Eis que a Colombo foi vendida para o grupo liderado por Ervin Bonkoski e uma nova programação surgiu com força no jornalismo e fui requisitado para a reportagem geral e assim, por falta de tempo, me afastei do jornal, só voltando anos mais tarde.

POLICIAL

Na Colombo fiz inúmeras coberturas, mas a B2 me abriu campo de trabalho com novas missões e fiquei por lá, fazendo esportes e jornalismo. Ao assumir a direção artística, Jair Brito me chamou e disse que precisaria de meu tempo integral no jornalismo, porque iria criar uma cobertura policial constante, com boletins durante todo o dia, inclusive de madrugada e também na Revista Matinal e eu seria o encarregado de tal trabalho. Foi colocado um carro a minha disposição com um transmissor WHF e Demerval Costa para me auxiliar. Foi aí que surgiu prá valer o José Domingos, repórter policial.

SEM PARAR

Trabalhava dia e noite e os resultados foram ótimos. Mais tarde foi contratado o Ali Chain para reforçar as reportagens policiais. Estava em alta quando fui chamado para conversar com Dr. Nagibe Chede, que estava mudando o nome de Rádio Emissora Paranaense, para Rádio Universo e pretendia montar uma grande equipe, o que acabou fazendo. Fui o primeiro contratado, com ótimo salário, direito a motorista e trouxe comigo da B2 o Lauro, motorista, excelente companheiro.

Depois foram contratados Wilian Sade, Aristeu Miguel, Almir Feijó e outros que faziam sucesso na Rádio Independência. A Universo passou a liderar a nossa radiofonia e ali, além dos boletins durante a programação com informações policiais dos locais dos acontecimentos, ainda tinha três grandes programas: um às primeiras horas da manhã, outro ao meio dia e um às 23h30. Todos com grande audiência.

TELEVISÃO

Nagibe era um empresário arrojado dos meios de comunicação, além da Rádio Emissora Paranaense, depois Universo, foi também proprietário da Rádio Curitibana e foi o pioneiro da televisão no Estado, instalando o Canal 12 - TV Paranaense. O primeiro estúdio foi no último andar do Edificio Tijucas e alguns dos funcionários da rádio, como Moraes Fernandes, (animador de programas radiofônicos, se adaptou rápido ao novo veículo, mostrando-se espirituoso brincalhão e comunicativo), Alcides Vasconcelos (este, uma das mais lindas vozes de todos os tempos em nosso rádio, apresentava os telejornais), Tonia Maria, excelente locutora tornou-se uma destacada apresentadora de televisão e foi sucesso durante muitos anos até encerrar a carreira na TV Iguaçú, Elon Garcia, apresentador com voz marcante e outros que não lembro no momento.

Os programas em sua maioria eram locais e feitos com criatividade porque os recursos técnicos eram mínimos. O Mauricio Fruet comandava o programa de esportes.
Como fizera na rádio, investindo em contratações para uma nova programação, Nagibe Chede resolveu também mexer na televisão, que saíra do Tijucas para instalar-se num barracão na Emiliano Perneta, quase esquina da Senador Alencar Guimarães, onde a Rádio Universo tinha seus estúdios no Edifício Marisa.

Edson Marassi, um conceituado radialista, excelente voz, foi contratado para dirigir o jornalismo na televisão. Em dado dia, Marassi, que também já trabalhava na Universo, me chamou e me propôs uma gratificação para que passasse as noticias policiais para a televisão. Topei e passei a redigi-las para que os apresentadores as transmitissem.

NA TELA
Passados alguns dias Edson, irmão do Carlos, que também fez sucesso no rádio e televisão me chamou e informou que iria apresentar as notícias ao vivo. Nos primeiros dias foi difícil e depois fui pegando jeito, bem como gosto. O noticiário policial ganhou força e espaço. Na sequência a televisão foi adquirida pela Gazeta do Povo e modificações aconteceram.

NOVO DIRETOR

João José de Arruda Neto, o Jota Jota, que se destacara no Canal 4, TV Iguaçú, como apresentador do “Show de Jornal” daquela emissora, que marcou época com Jamur Júnior, Haroldo Lopes, Tonia Maria, Chacon Júnior, Ali Chaim, o Sombra e outros, foi contratado para a direção artística do Canal 12. Mas, antes de citar o Jota, no 12, faço questão de lembrar que o jornal do 4, tinha como jornalista chefe Ducastel Nicz, um senhor jornalista. Renato Schaitza, outro excelente profissional era um dos redatores. Uma grande equipe.

ESTILO

Agora sim vou contar sobre o Jota Jota. Ele, dias depois de ter assumido, me chamou em sua sala e disse: “o seu noticiário é bom, bem atualizado, mas pode ser melhor se você se soltar mais na apresentação. Notei que você não tem script, apenas anotações e improvisa tudo. Pode continuar assim é interessante, mas se solte mais. Você fica muito durão, gesticule, converse com o telespectador, arrume jargões e se achar que deve detonar o bandido, o faça. O povo quer isto”. Ouvi tudo com atenção e disse que iria tentar me adaptar. Passados alguns dias, ao me referir a um bandido o chamei de “desavergonhado” e para informar que ele foi preso bati forte a mão direita no pulso esquerdo e em seguida fechei um xadrez com os dedos.
Terminado o programa, o Jota veio ao estúdio e foi logo dizendo: “Zé, é isto ai, você está no caminho, continue que vai ser sucesso” e continuei me soltando, inventando termos como “vidas tortas”, “filhos de ninguém” e também imitando o papo de marginais e até imitando travestis. Com isto ganhei popularidade, formando um grande público. Por onde passava me chamavam de “desavergonhado”.

TIME

Desde menino fui organizador de times de futebol, formei o Aymoré, entre vizinhos, depois ao lado do Levi Moraes, na Rua Prudente de Morais, e já adulto ao lado do também radialista Emerentino Paca e do Zezo, que mais tarde viria a ser meu compadre, o Zé Carioca, que disputou o peladão do Nelson Comel e foi do Zé Carioca, que surgiu o “Desavergonhados”.

Acontece que nos jogos do Zé Carioca, face a minha presença e pela ligação com os programas de rádio e televisão, o pessoal falava: “Olha o time do desavergonhado”. Então resolvei dar o nome de “Desavergonhados” ao time e passei a divulgá-lo nos programas. Logo, logo estava famoso e era convidado para jogar em clubes, nos diferentes bairros de Curitiba, em cidades do interior do Estado e fora do Paraná. O “Desa”, como alguns citavam, esteve em São Paulo, em Santa Catarina e até na divisa de Paraná, Santa Catarina, Brasil e Argentina, isto é, em Barracão.

Disputou quatro copas Arizona, sendo campeão estadual em duas e noutra vice. Esta era uma competição nacional patrocinada pela Souza Cruz e em dois anos a equipe em São Paulo, chegando a ser terceira colocada numa das oportunidades e na outra quarta. Num dos títulos estaduais houve o confronto com o campeão de Santa Catarina e o time “barriga verde” foi o vencedor, ganhando condições de seguir na competição.

O Desavergonhados era formado a base de amigos, a maioria do Boqueirão e fez sucesso durante mais de 25 anos. Acontece que a idade foi pegando, alguns se mudaram, inclusive o Zezo, em função de doença, foi morar no litoral e sem ele e a comadre, ficou difícil de tocar. Mesmo assim hoje ainda as vezes alguns dos componentes do grupo se reúnem para um bate bola. O time dos “Desavergonhados” foi também campeão do “Veteranão”, campeonato promovido pelo Diário Popular, organizado pelo jornalista Leonidas Rodrigues Dias

DIÁRIO

Já que citei o Diário Popular, lembro que trabalhei por uns quase vinte anos neste jornal. Foram três passagens pela empresa, sendo a última, de 13 para 14 anos. Ainda trabalhei nos jornais Jornal de Curitiba, da família Barroso, Folha de Curitiba, do Bento Chimelli (Beneli), Diário da Tarde e Gazeta do Povo. Foi um prazer trabalhar em jornais e televisões, mas o gosto maior é mesmo o rádio, uma verdadeira paixão e paixão dizem não acaba nunca, por isto continuo madrugando todas as manhãs à partir das 5 horas na Rádio Colombo, AM-20.

Em rádio além da B-2, onde comecei passei ainda por Nereu Ramos, de Blumenau, Colombo, Curitibana, Independência, Tapajós, de São José dos Pinhais, depois Nova Terra e hoje Mais, Tingui, Universo e Cultura. Em algumas passei por duas e até mais vezes.

PROFISSIONAL

Também imaginava ser dirigente do Ferroviário e não tive oportunidade, afinal de contas ainda era muito jovem, mas acompanhei o clube muito de perto, inclusive participando de reuniões de seu Conselho Deliberativo. Com o surgimento do Colorado, levado pelo Eny Egas, eleito presidente e que não chegou a assumir face a falecimento prematuro, me tornei conselheiro. Depois indicado pelo Joaquim Cirino dos Santos, fui vice presidente de futebol, tendo como diretor o Azis Domingos, que muitos pensam ser meu parente, o que não é verdade. Foi um grande companheiro e até hoje sinto saudades dele, que nos deixou muito cedo. O “Zizinho” era um “parceiraço”, como foi o compadre Zezo, também já falecido, durante vários anos.

PARANÁ

Com o surgimento do Paraná Clube, fui indicado e eleito conselheiro, hoje sou vitalício. Fui vice presidente em várias áreas, inclusive de futebol profissional onde se recuperou depois de nove anos o titulo estadual, boas campanhas em brasileiros levando a equipe a Sulamericana e a Libertadores da América. Mas, como no futebol se vai em questão de segundos do “céu ao inferno”, tenho a tristeza de carregar a mágoa de estar na vice presidência de futebol quando do rebaixamento para a 2ª. Divisão, mas logo o Tricolor estará de volta à elite.

FELIZ

Tirando esta tristeza da queda do Paraná Clube, no mais me considero um privilegiado. Sempre trabalhei com prazer, porque trabalho no que gosto, tive pais maravilhosos, tenho irmãos companheiros, especialmente a Nice, uma segunda mãe, também uma espécie de mãe para meus filhos Magno Marcos e Márcio José, dois “meninos” muito bons, Luciane (médica) e May (advogada), noras queridas, Ana Carolina e Larissa, de Luciane e Magno e Mateus Henrique, de May e Márcio, netos espertos e queridos, Ana Maria, companheira por mais de 35 anos e amigos, muitos amigos e companheiros por ai afora. E tenho também aquilo que é o principal na vida de todos nós, saúde. Por isto e por tantas outras coisas não canso de dizer que: “sou feliz, muito feliz”.

Obrigado Senhor e um abraço a todos!

José Domingos Borges Teixeira

(ZéDomingos)

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