LEMBRANÇAS DE SIQUEIRA CAMPOS, TERRA EM QUE NASCI

Por Zé Domingos

Em determinada ocasião ao divulgar em programa de rádio ser nativo de Siqueira Campos – Paraná dias após recebi do amigo, companheiro e colaborador Antonio Pedro Flores Amaral homem pelo qual nutro grande admiração e respeito um artigo por ele elaborado relatando histórico da personalidade que originou o nome da cidade em que nasci.

         Naqueles tempos uma pequena cidade e que começava a surgir na região norte do Estado, mais tarde chamada de norte pioneiro diante o surgimento do chamado norte novo com importantes cidades como Londrina, Maringá, Mandaguari, Apucarana, Arapongas, Rolandia, Cambe e outras. Nasci 19 de janeiro de 1.943 numa pequena casa de madeira na zona rural, no distrito de Barbosas em parto realizado por uma parteira. Naqueles tempos no mato não podia nem se pensar em médico. A mulher depois do parto ficava em quarentena (quarenta dias no quarto de preferência escuro), alimentando-se de comidas especialmente canja de galinha. Eram inúmeros os cuidados com as parturientes.

No local onde nasci havia uma estação da Rede Viação Paraná – Santa Catarina e papai João Dario Teixeira como ferroviário havia sido transferido para lá. Barbosas era uma área em expansão com plantação de algodão e por lá existia a chamada ulha que dava trabalho para muita gente. O movimento era intenso e papai resolveu colocar um armazém de secos e molhados, pois só havia um na vila pertencente a família Fontanelli, inclusive sou afilhado de casa de Tide Fontanelli que já passou dos 90 anos e continua firme e forte. Disse afilhado de casa porque naqueles tempos principalmente no mato a criança era batizada dias após o nascimento em casa e depois na igreja.

O registro de nascimento também demorava a ser feito. Eram as dificuldades de sair do mato para ir até a cidade mais próxima que forçavam estas situações. Naqueles tempos as estradas eram em chão batido e quando muito ensaibradas. As condições eram precárias. Carros eram poucos e quem os tinha eram os ricos. Os demais quando muito como o caso de papai tinham carroças puxadas por burros ou cavalos.

         Papai trabalhava na rede durante o dia enquanto mamãe cuidava do armazém, da casa e do Zé Domingos, já que meus irmãos foram internados em colégios de Castro e Ponta Grossa. No final da tarde papai assumia o armazém e ia até a noite, enquanto Dona Alcina desenvolvia os afazeres domésticos e ouvia a Rádio Nacional do Rio de Janeiro e a PRB- 2 de Curitiba especialmente as novelas. João Dario normalmente as sábados saia bem cedo com a carroça para buscar mercadorias em Siqueira Campos. Ia pela manhã e a tarde estava de volta. Uma luta grande, difícil. Em alguns domingos o povo do lugar se reunia para moer cana de açúcar, produto da região e fazer a famosa garapa. Também eram assadas carnes, enfim um domingo de festa e confraternização. Todos se conheciam pelo nome, faziam negócios, trocando mercadorias, idéias e passando horas agradáveis. No final da tarde voltavam para as suas casas felizes. Não havia maldade e todos se davam bem.

         Quando o movimento começou a diminuir em Barbosas papai resolveu sair da rede, vender o armazém e transferir-se para Castro e foi nesta cidade que cheguei perto dos quatro anos passando ali a infância. Sai de lá perto dos dez anos, mas nunca esqueci de Barbosas e depois de adulto fui várias vezes até lá para conhecer melhor o lugar que nasci e para matar saudades. Lá é produzida a famosa cachaça Vita-Cana, uma das melhores da região criada pelo Wilson Fontaneli e após sua morte em trágico acidente rodoviário quando se deslocava de Siqueira Campos para participar de uma festa em família na capital hoje o alambique é tocado por um dos seus filhos e familiares.

Ali quando tinha três anos sai correndo atrás de um cavalo e levei um coice no nariz e por isto tenho o mesmo torto até hoje. Depois ainda tive mais duas fraturas no nariz uma em acidente de carro e outra jogando futebol, agora não tem mais como arrumar e o septo está totalmente desviado. A de Barbosas marcou porque ocorreu quando criança e fui atendido por seu Bastos um senhor português que se apresentava como farmacêutico. Ele me socorreu e dias depois estava melhor, mas a marca ficou para sempre.

         Lembro das corridas de cavalos na raia e meus irmãos Nice e Luiz Fernando quando em férias participavam das mesmas. Foi feito em terra um campo de futebol e o time do lugar foi denominado Alecrim Futebol Clube. Em Siqueira Campos havia o Pindorama que disputou campeonatos oficiais da Federação Paranaense de Futebol. Pindorama é hoje o principal clube da cidade. Coisas de criança dificilmente nos esquecemos e me lembro que peguei tosse cumprida e para curá-la tomei leite de égua, parece que era bem doce, não recordo mais.

Siqueira Campos tornou-se uma cidade industrial e atualmente é destaque na região do norte pioneiro. Em outra matéria vou focalizar a Siqueira Campos de hoje, uma cidade em plena expansão. Também em outra matéria o texto de Antonio Pedro Flores Amaral contando a história do Tenente Siqueira Campos.

         Mesmo saindo com três anos de Siqueira Campos gosto muito da cidade e a admiro por seu povo extremamente trabalhador e de iniciativas. Justamente por este espírito empreendedor a cidade hoje está muito bem posicionada e conhecer, bem como destacar o histórico daquele que lhe deu o nome é satisfação. Recordo que antes de ser Siqueira Campos era Colônia Mineira. Siqueira Campos e Castro paixões de infância e a grande paixão é mesmo Curitiba onde estou há 59 anos e a conheço como poucos, inclusive tive a honra em ser vereador e também deputado estadual com a maioria esmagadora dos votos conseguida na capital paranaense. “RECORDAR É VIVER” e viver é ótimo. Salve a vida, “SENHOR” lhe agradeço pelo dom da vida e lhe peço saúde para todos.

 José Domingos Borges Teixeira

(Zé Domingos)

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