IDEALISTAS INSISTEM COM CARNAVAL EM CURITIBA. BONS TEMPOS SE FORAM.

Por Zé Domingos

Com a participação de Luiz Fernando Bartolomei Fink na matéria “LUIZ GERALDO MAZZA E NOSSO CARNAVAL, BANDA POLACA E A FOLCLÓRICA GILDA” onde em comentário faz um interessante relato de como surgiu uma das mais famosas escolas de samba de Curitiba a “Não Agite” ligada ao Coritiba e como está chegando o Carnaval a mais popular festa do Brasil resolvi mais uma vez abordar o Carnaval curitibano, relembrando mulheres, homens e grupos que fizeram  histórias e estórias do “Reinado de Momo”, em Curitiba, para muitos uma cidade totalmente avessa a Carnaval.

Tenho um respeito todo especial por pessoas idealistas e que não medem esforços para alcançar seus objetivos. Ao se aproximar mais um Carnaval, lembro que em Curitiba, esta festa sempre foi desenvolvida pela iniciativa de alguns abnegados. Nunca houve por parte do poder público, do comércio, da sociedade em geral, um incentivo maior para torná-la a verdadeira festa do povo, na capital dos paranaenses.

Houve até quem apregoasse a idéia de convidar as pessoas que não gostam de Carnaval, que viessem para a nossa cidade, pois aqui ficariam tranqüilas, sem incômodos do barulho e da agitação dos folguedos. Até jornalistas se mobilizaram neste sentido.

Mas, os idealistas resistiram e ainda temos algumas escolas de samba que desfilam pela Avenida Candido de Abreu, para levar a alegria do Carnaval, para aqueles que gostam e que permanecem por aqui.

Confesso que há vários anos não tenho acompanhado o Carnaval, em Curitiba e mesmo em outras localidades. Quando muito assisto um ou outro desfile e assim mesmo por alguns minutos nas transmissões das redes de televisão. Estou afastado do Carnaval como do Futebol, mas não significa estar desligado dos mesmos, pois isto impossível para quem é brasileiro e gosta de ser povo e de suas coisas.

Durante muitos anos acompanhei e participei de nosso Carnaval.  Colaborei com escolas de samba, de diferentes formas, até mesmo da fundação de algumas como Unidos do Boqueirão, do sempre lembrado mestre Libanio, da Aristocratas do Ritmo, comandada pelo Mauro, Ideais do Ritmo, liderada pelo Mansueden, o popular Chocolate, um carioca que veio para Curitiba e aqui ficou até morrer. A praça onde a escola ensaiava no Capão da Imbuia, transformada num campo de futebol tem o seu nome.

Antes da Ideais do Ritmo, esteve na Escola de Samba Colorados, a escola da bateria nota dez da cidade, cadenciada por Ismael Cordeiro, o Mestre Maé, o Maé da Cuíca e que foi nosso “Cidadão Samba”. Depois seu filho Binho, assumiu o comando da bateria e ficou até quando a escola deixou de participar dos desfiles. Aristocratas, Ideais e Unidos do Boqueirão, também desapareceram.

Das antigas daquelas dos meus tempos de Carnaval, anos 70, 80 e 90, praticamente todas desapareceram, Não Agite, do Glauco Souza Lobo, do Carlos Fernando Mazza, do Carlos Nassar, compositor de sambas enredo, do Lima e outros, ligada ao Coritiba, realizando seus ensaios debaixo da arquibancada do estádio coxa, Colorados, da Vila Capanema, ensaiou durante alguns anos debaixo a hoje Reta do Relógio, no Estádio Durival Brito e Silva, do Ismael Cordeiro, o Maé, seu irmão Nelson, Vico, Mauri Roika, Tatu, Soninha, Neil, Iolanda, Marilza, Rainha de nosso Carnaval em algumas oportunidades, Nelsinho. Mário Cantareli, que tinha o dedo polegar desgastado e dizia ter acontecido aquilo de tanto tocar tamborim, Foliões da Mocidade, formada dentro da Sociedade 27 de Janeiro, localizada na Avenida Desembargador Westphalen, Bola Preta, formada por jovens freqüentadores da Sociedade Thalia, Sapolandia, criada e embalada pelo Julinho Taiss, representando a região do Guabirotuba, Asas da Alegria, ligada ao Ícaro Atlético Clube, do Bacacheri e a Base Aérea, do saudoso Lauro Carvalho Chaves, o Baio, que foi vereador de vários mandatos em Curitiba, Cirineu Moraes, o mestre da bateria, Jubal, Noli, Afunfa, Zuzu, Betinho e tantos outros.

Com a extinção da Asas da Alegria, surgiu com grande pompa, fazendo uma verdadeira revolução no Carnaval  de Curitiba, a D. Pedro II, assim denominada porque foi a Sociedade Dom Pedro II, que cedeu suas dependências para escola ensaiar e se organizar. Já no seu primeiro ano de avenida quando os desfiles aconteciam na Rua Marechal Deodoro com concentração nos fundos do Colégio Santa Maria e dispersão na Praça Zacarias, o sucesso foi total.

Com grande número de componentes, carros alegóricos, bateria forte., destaques de fantasias, belas mulheres, a D. Pedro II, arrasou mesmo. Não sei precisar o ano, mas deve ter sido no final dos 60, inicio dos 70. A escola ganhou credibilidade com o público e até torcida passou a ter. As arquibancadas eram armadas da Barão do Rio Branco até a Marechal Floriano e o palanque das autoridades e convidados normalmente entre a Monsenhor Celso e a Marechal Floriano.

Em determinadas ocasiões foram instaladas cabines especiais para os membros da Comissão Julgadora e em outras ficavam num reservado junto ao palanque principal.

Naquele tempo eram fortes a Não Agite, sempre brigando por títulos, a Embaixadores da Alegria, então liderada pelo Dr. José Cadilhe de Oliveira, que realizava excelentes desfiles, mas não conseguia o titulo nunca, quando no muito ficava em segundo lugar. Era ligada a Sociedade União Juventus, da qual o Dr. Cadilhe, era um dos abnegados, a Colorados tinha como destaque principal a sua bateria,  chamada de bateria nota 10, que agitava os foliões, fazendo com que muita gente a acompanhasse até o momento da dispersão, Asas da Alegria, também fez sucesso.

A Sapolandia, que surgiu anos depois também apareceu em grande estilo, conseguindo destaque em vários desfiles. Houve também a Zebra no Batuque e tinha o bloco dos índios Apinagés, vindos de Antonina. Houve anos que muitos dos carnavalescos que desfilavam em Curitiba, depois iam para Antonina, onde eram realizados movimentados desfiles nos domingos. Paranaguá, também é uma cidade de muito Carnaval e de uns anos para cá quem realiza movimentado Carnaval de rua é a tradicional Tibagi.

Os concursos em Curitiba eram bastante acirrados e disputados, embora nunca houvesse uma premiação especial. A Prefeitura destinava alguns recursos às escolas, os entregando algumas semanas antes do Carnaval e em alguns anos procurando estimular a festa trouxe artistas famosos entre eles Leci Brandão, maestro Erlon Chaves, José Messias, Lúcio Mauro, componentes de escolas de samba do Rio de Janeiro, para fazerem parte da Comissão Julgadora.

O resultado sempre era aguardado com grande expectativa e houve anos que alguns inconformados chegaram as vias de fatos, ficando clima tenso. Houve protestos acalorados.

Das escolas antigas as únicas que continuam são a Embaixadores da Alegria, adotada pela família D’Avila e a Mocidade Azul, está é bom destacar era a D. Pedro II. Acontece que a Sociedade Dr. Pedro II, após ceder espaço para a escola ensaiar durante alguns anos, resolveu que não acataria mais o grupo e assim o pessoal foi para o Pinheiros, surgindo a Mocidade Azul, liderada pelo Osvaldo Tavares da Silva, o popular  Afunfa, com Charrão, o grande zagueiro do Atlético Paranaense, Amauri, outro jogador do Atlético, como chefe da batucada, Jubal, Noli, Orlando, Amauri, Casinha, outros e várias mulheres muito dispostas, algumas  bonitas e atraentes.

A Mocidade Azul passou a ser um show a parte no Carnaval de Curitiba, criando até rivalidade e ciumeira com as demais.  Enfim Curitiba, teve bons momentos no Carnaval. Houve época em que os desfiles eram na rua XV de Novembro, onde havia isto lá pelos anos 50 o famoso Corso, com carros fantasiados, blocos e cordões.

Houve o concurso do folião mais resistente no terreno onde hoje está o Banco do Brasil, na praça Tiradentes, durante anos e depois o mesmo foi proibido, pois consideraram ser uma afronta a saúde de homens e mulheres que procuravam ficar quatro dias e quatro noites dançando em troca de alguns prêmios. Houve também a Banda Polaca, criada pelo Anfrizio Siqueira, o presidente da Boca Maldita. Nos anos 70, 80, fez grande sucesso, saindo na abertura do Carnaval, as sextas feiras.

Na Banda Polaca, a presença de lindas mulheres, o que chamava bastante atenção e arrastava muitos marmanjos para participar da folia.

Praticamente todos os clubes realizavam bailes de Carnaval com salões lotados, ótimas orquestras, destacando-se os bailes populares entre eles os do Operário, que nas segundas feiras, explodia com a noite dos “Enxutos”, um verdadeiro luxo. Osvaldinho, um gay muito conhecido na cidade, sempre era uma atração. Vinham travestis de vários estados e personalidades da política, da sociedade, incluindo-se homens e mulheres, não mediam esforços para participar do evento.  Fui apresentador deste baile durante vários anos. Os ingressos eram vendidos antecipadamente e era uma correria para consegui-los. As vezes um mês antes estavam todos vendidos.

O Barriga, que trabalhava na Tribuna do Paraná, teve uma idéia e a levou a apreciação da direção do jornal que a achou interessante, determinando que fosse a luta. Depois de contato e acerto com a Sociedade Batel, o famoso Batelzinho, foi lançado o concurso “A Bem Bolada”, reunindo mulheres das boates de Curitiba. O sucesso foi absoluto já no seu primeiro ano e seguiu por vários anos e segue até hoje.

Saiu da Sociedade Batel, porque se expandiu e a Batelzinho, não tinha espaço e segurança para abrigar tanta gente. Assim a festa nos domingos foi para o ginásio do Clube Atlético Paranaense e depois passou por vários locais. O fotografo Mário Neri, mantém a tradição de “A Bem Bolada”, contando ainda com o apoio da Tribuna do  Paraná.

Em alguns anos quando trabalhava junto ao Departamento de Divulgação da Prefeitura de Curitiba, comandado pelo sempre lembrado jornalista Aramis Milarch, participei da cobertura e da organização de desfiles das escolas de samba e então durante os ensaios e depois nos desfiles convivi com muitos carnavalescos e há muitas histórias e estórias para serem contatadas, mas hoje vou ficando por aqui, porque tudo que escrevo de recordações é retirado do “arquivo mental” e este está começando a cansar, principalmente com este calorão que aí está.

É bom lembrar que Carnaval é festa, é alegria, é confraternização, não é baderna, confusão, briga e pretextos para bebedeiras e drogas. Vamos festar sem abusos. Antigamente havia quem aspirasse a lança perfume, usasse um comprimido chamado Dexamil, outro chamado Perventin, para embalar, mas tudo era errado e acabou com o tempo sendo proibido.

Não vamos transformar uma festa, num pesadelo. Vou escrever ainda mais sobre Carnaval, inclusive como ele surgiu e outros detalhes interessantes. Aguardem e bom Carnaval, a todos. O carnaval começa no sábado (18).

José Domingos Borges Teixeira

(Zé Domingos)

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1 comentario sobre “IDEALISTAS INSISTEM COM CARNAVAL EM CURITIBA. BONS TEMPOS SE FORAM.”

  1. Não adianta: nenhuma manifestação de rua alcança sucesso se, antes de qualquer outra coisa, a própria população não abraçar a idéia.

    Essa foi a razão principal pela qual os carnavais do Rio, Salvador, Recife e porque não da minha sempre querida Antonina deram certo.

    Essa festa não é nossa – ou pelo menos não nesse formato…

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