GUERRA DO CONTESTADO (1911 – 1.916)
Antonio Pedro Flores Amaral
A Revolta do Contestado foi a repetição quinze anos mais tarde e em pleno Sul-Paraná/Santa Catarina, do massacre ocorrido em Canudos. Os dois episódios se assemelham em tudo: ao messianismo primitivo, no desespero dos “fanáticos”, na crueldade quase demente dos soldados que se combateram, nos interesses exclusivistas das elites, nos delírios apocalípticos do “monge” João Maria, tão similares aos de Conselheiro. E, principalmente se parecem pelo desfecho trágico e sangrento.
O QUÊ – A Guerra do Contestado foi o conflito entre o Exército e os camponeses miseráveis da região sudoeste do Paraná e noroeste de Santa Catarina, território de 48 mil quilômetros quadrados disputado desde os tempos do Império por Paraná e Santa Catarina área “contestada” era limitada pelos rios Uruguai, Iguaçu e do Peixe e pela fronteira com a Argentina. Essa remota “terra de ninguém” rica em pinheirais e e ervais fora ocupada por refugiados das revoluções gauchas e desvalidos em geral.
Em 1.900 o governo cedeu uma faixa de trinta quilômetros de largura para a Brasil Railway, no centro da qual seria construída a ferrovia São Paulo – Rio Grande do Sul. Posseiros que ocupavam a área foram desalojados a força. A seguir a madeireira Southern Lumber, pertencia ao americano Percival, Farquhhar, um dos donos Brasil. Na região do “CONTESTADO” quem não trabalhava para Farguhar trabalhava para os “coronéis” da erva mate em ervais onde a semi escravidão também imperava. Em 1.906 com a suspensão das obras da ferrovia oito mil homens foram demitidos e deixados ao léu pela região. O terreno para a revolta estava pronto.
QUANDO – Em novembro de 1.911 surgiu em Palmas (PR) um homem alçto, cabeludo, desdentado e barbudo, um gaucho mestiço de índio chamado Miguel Lucena de Boaventura, desertor da Força Pública do Paraná. Citando a Bíblia e um livro para crianças sobre Carlos Magno, dizia-se herdeiro espiritual do monge João Maria, líder messiânico que percorrera a mesma região na época da Revolução Federalista de 1.893 no Rio Grande do Sul, vencida por Júlio de Castilhos. Lucena logo mudou de nome, passou a auto se denominar monge José Maria e reuniu em torno de si dois mil seguidores.
COMO A GUERRA ECLODIU – José Maria pregava a proximidade do fim dos tempos, afirmava que o comércio era coisa do demônio e que Dom Sebastião voltaria para reinar sobre os homens. Dizendo-se eleito por Deus para erguer na terra a “MONARQUIA CELESTIAL”, o monge fundou seu primeiro “quadro santo” no município de Curitibanos – Santa Catarina. A área era delimitada por cruéis nos quatro cantos e uma tosca. Ali se instalaram dois mil seguidores. Alertado pelos coronéis da região o Exército foi chamado para expulsar os “fanáticos”, depois de José Maria se recusar a depor na delegacia de Palmas (PR).
Em outubro de 1.912 uma tropa de quatrocentos homens chefiada pelo capitão João Gualberto atacou o “quadro santo” de Irani, onde os seguidores do monge tinham se refugiado. Quando a metralhadora da tropa de João Gualberto engasgou, os fanáticos soprando berrantes investiram contra os invasores. Embora José Maria tenha sido um dos primeiros a tombar, o capitão João Gualberto, qaue renunciara o cargo de Prefeito de Curitiba para seguir a carreira militar e mais 13 soldados também foram mortos e o restante da tropa fugiu, deixando armas e munições para os rebeldes.
COMO A GUERRA ACABAOU – Apesar de José Maria não ter ressuscitado como anunciara, seus seguidores continuaram combatendo os “peludos”. Depois de alguns caboclos terem seus cabelos raspados pela polícia, os “fanáticos” do Contestado também cortaram os seus e decidiram se chamar de “pelados”. Os inimigos da “Monarquia Celestial” viraram “peludos”. Com outros líderes e adotando táticas de guerrilha, os “pelados” resistiram a todas as investidas dos “peludos”.
UMA VIRGEM DE QUINZE ANOS CHEFIA OS REBELDES – A virgem de 15 anos Maria da Rosa tornou-se chefe militar e o “menino Deus”, Joaquim de 11 era tiudo como porta voz de José Maria, que do além comandava o exército de 5 mil sertanejos. Os rebeldes chegaram a dominar 25 mil quilômetros quadrados vencendo sete expedições enviuadas contra eles. Em setembro de 1.914 o general Setembrino de Carvalho chegou a Curitiba coim ordens do ministro da Guerra para sufocar a rebelião. Com sete mil homens (80% do total do Exército) bem armados e os primeiros aviões usados para fins militares no país, Carvalho atacou os “fanáticos” implacavelmente, matando homens, mulheres e crianças. Ainda assim a “Guerra Santa” perdurou até janeiro de 1.916. Em cinco a\nos de luta 9 mil casas haviam sido queimadas e 20 mil pessoas mortas.

ADENDOS IMPORTANTES – A Guerra do Contestado perdurou em dois períodos presidenciais – Presidente Marechal Hermes da Fonseca (1.910 – 1.914). Mas na realidade o poder do Senador Pinheiro Machado, era quase total. Do Presidente Venceslau Brás (16/11/1.914 – 16/11/1.918. Repetindo – a Guerra do Contestado foi até janeiro de 1.916. Venceslau Brás não deu posse a Rodrigues Alves, porque ele morreu da epidemia da Gripe Espanhola. Em seu lugar e assumiu interinamente por oito meses Delfim Moreira que por sua vez morreu com sífilis-terciária, logo depois de ser obrigado a realizar novas eleições. E a 8 de janeiro de 1.915, Pinheiro Machado foi assassinado no Rio de Janeiro. Ele não aceitou ser candidato a sucessão do Marechal Hermes das Fonseca.
Autor Antonio Pedro Flores Amaral
Escritor – historiador



