Futebol Amador de Todos Os Tempos

Por Zé Domingos

Ultimamente tenho tido o imenso prazer de manter contatos pessoalmente, por telefone e e-mails com universitários de diferentes cursos que vem conversar conosco sobre assuntos de Curitiba especialmente com relação a tempos idos. A nova ligação com Ana Claudia  Chichon, da Universidade Federal do Paraná que havia conversado conosco anteriormente sobre futebol amador e agora relembra que naquela ocasião relatava que o número de clubes era elevado formando três divisões com inúmeras agremiações dos mais diferentes bairros.

         Com o crescimento da cidade os terrenos que serviam de campos foram transformados em áreas residenciais, praças, sedes de estabelecimentos comerciais e assim equipes foram desaparecendo. Ano a ano foram diminuindo os participantes dos campeonatos oficiais promovidos pela Federação Paranaense de Futebol. Hoje temos duas divisões com a participação na primeira de Urano – Vila São Pedro – Xaxim, Caxias – Boqueirão, Vila Hauer – Hauer, Vila Fanny – Fanny, Capão Raso – Capão Raso (rebaixado este ano por ficar entre os últimos colocados) – Operário Pilarzinho – Pilarzinho (também rebaixado pela mesma situação), Combate Barreirinha – Barreirinha, Trieste e Iguaçu – Santa Felicidade e Santa Quitéria – Santa Quitéria.

         Na segunda divisão as presenças de Ypiranga – (Água Verde, mas com campo no Jardim Independência – Fazendinha o mais antigo dos times de nosso futebol suburbano por isto chamado simpaticamente de “vovô da suburbana”,) Bangu – Campina do Siqueira, Associação Recreativa Beneficente Esportiva Sitio Cercado – ARBESC – (Sitio Cercado), Uberlândia – (Portão), Sergipe – (Parolim), Novo Mundo – (Portão), Flamengo – (Santa Felicidade), Santíssima Trindade – (Cajurú), Grêmio Ipiranga – (Capão Raso), União Barigui (Barigui do Seminário) Santíssima Trindade (Cajurú), Renovicente (Fernando Noronha), Grêmio Paranaense (Umbará), Rio Negro – (Pinheirinho), Uberlândia (portão) e União Ahú (Estribo Ahú) Nos anos dois mil vários times desapareceram de nosso amadorismo e há projeção de outras agremiações terem o mesmo rumo brevemente, o que é lamentável.

         Para que tenham um parâmetro do futebol amador dos anos 50, 60 para os dias de hoje apresento em seguida uma relação de equipes que desfilavam nos campeonatos oficiais daquela época, destacando que havia também inúmeros times que disputavam amistosos. Eis a relação do ano de 61 – Primeira Divisão – Trieste, Iguaçu (Santa Felicidade), União Barigui (Barigui do Seminário), Rio Branco (Estribo Ahú),  Operário do Ahú (Ahú), Bangu (Campina do Siqueira), União Ahú (Estribo Ahú), Operário Mercês (Mercês), Belmonte (Água Verde), Poti (Galícia Estádio Capitão Manoel Aranha, onde hoje está a Praça 29 de Março), Bacacheri (Bacacheri) e Vasco da Gama (Pilarzinho). Total de 13 equipes. O campeão foi o Operário do Ahú, proprietário do Estádio Centenário e contou com estes jogadores – Osmar Macaco, Primo, Odilon, Ivo, Duca, Milton, Vine, Ade, Murici, Levi e Acyr

Segunda Divisão – Real (este time que contava em seu elenco com vários ex profissionais começou na Lapa e transferiu-se para Curitiba, sem ter uma região definida  e era dirigido por Valdomiro Rauth, um ponteiro esquerdo que começou no União da Lapa, passou por Água Verde e Palestra Itália, atuando também na Seleção Paranaense que naquela época disputava os campeonatos brasileiros entre seleções organizados pela Confederação Brasileira de Desportos – CBD), Guaira (Vila Guaira com campo ao lado do Estádio Orestes Thá do Água Verde hoje sede social do Paraná Clube e aonde era campo do Guaira é uma praça), Novo Mundo (Portão), Esperança (São José dos Pinhais), Flamengo (Bom Retiro), Cinco de Maio (Água Verde com campo defronte ao Estádio Joaquim Américo do Clube Atlético Paranaense aonde hoje está uma praça), Clube Espartanos (time chamado como dos boêmios contando com vários policiais militares e sediado no centro da cidade), Operário Pilarzinho (Pilarzinho – Estádio Bortolo Gava), São José (São José dos Pinhais), Madureira (Bom Retiro), Bola de Ouro (Uberaba), Botafogo (Mercês), América (Capanema com ligação com  a Rede Ferroviária, depois mudou de nome passando a ser Ferroviária) e União Bigorrilho (Bigorrilho).

         Várias destas equipes pertenceram a linha principal de nosso amadorismo, mas como não tinham campos cercados foram rebaixados casos de Cinco de Maio, União Bigorrilho, Madureira, Flamengo, Espartanos, América e Botafogo. O ultimo ganhou o titulo histórico de campeão do Centenário em 1.953 contando com estes jogadores – Caninin (goleiro que também era lutador de Box peso pesado conseguindo destaque nacional sendo chamado de “oi demolidor das Mercês” porque sempre nocauteava os seus adversários, Petcha, Lantzman, Pedrinho, Campo Magro, Bonde, Juve (Juvenal Ruppel que depois foi excelente treinador de futebol de equipes profissionais), Nereu, Florindo, Mário, Américo, Dore, Molinha, Romualdo e outros. O técnico Otávio de Castro – Vico que no futebol profissional trabalhou no Atlético Paranaense, Ferroviário, Água Verde e Palestra Itália e o presidente Navarro Mansur que transferiu residência para Maringá onde presidiu o Grêmio Esportes Maringá conseguindo vários títulos estaduais tornando-se um dos mais famosos times do interior paranaense em  todos os tempos, isto nos anos 60.

         O campeão da Segunda Divisão em 61 foi o Real recém chegado ao futebol da capital usando estes jogadores – Pedrinho (Pedro Bueno – que depois como profissional foi campeão paranaense em 67 defendendo o Esporte Clube Água Verde depois Pinheiros e mais tarde diante de fusão com o Colorado – Paraná Clube), Moacir, Valdomiro Galalau (zagueiro do famoso time do Atlético Paranaense campeão estadual em 49 quando surgiu o Furacão), Ivo Dorigo, Robertinho, Bizinelli, Tucá, Tissot, Nono, Vitoreli, Carrasco, Olevi e Valdomiro Rauth (fundador, presidente, técnico e jogador).

Terceira Divisão – Pinheirão (Bigorrilho – Mercês), Nova Orleans (Orleans), Seminário (Seminário),, Campo da Cruz (final da Avenida\ Vicente Machado – Campina do Siqueira), Camponês (final da Rua Carlos de Carvalho – Campina do Siqueira), Pinheirinho (Santa Felicidade), São Brás (São Brás), União Mercês (Vista Alegre das Mercês), Olaria (Bigorrilho), XV de Novembro (Alto da Rua XV), Rosenau (Boa Vista), Huracan São Vicente (Hugo Lange), União Campo Alegre (Avenida Vitor Ferreira do Amaral onde hoje está a sede da AABB), Boa Vista (Boa Vista), Tingui (Vila Tingui – Bacacheri), Floresta (Hugo Lange), União Campo Novo (Cajurú), Batelzinho (Batel – Seminário), Vila Leão (Portão),  Bloco Esportivo Capão do Amora (BECA – Água Verde), Vila Inah (Santa Quitéria), São Jorge (Vila São Jorge – Portão), Capão Raso (Capão Raso), Vila Izabel (Vila Izabel), Vitória, Tamoio , Vila Pinto (Capanema – Prado Velho), Santa Rita (Boqueirão), Vila Hauer (Hauer), Guairacá (Prado Velho – Guabirotuba), Triunfo (Vila Lindóia), Olímpico da Guarda Civil, Paissandu (Boqueirão), União Cajurú (Cajurú), Tupinambá (Boqueirão),  Ipê (Santa Quitéria – seu campo é o hoje Estádio Mauricio Fruet pertencente ao Santa Quitéria), Novo Mundo (Portão), Lisboa (Vila Lindóia), São José e Esperança (os dois últimos de São José dos Pinhais). Trinta e sete equipes.

O campeonato era disputado em séries regionais recebendo nomes de cores verde, amarela, azul, branca e preta. Depois os campeões das chaves  se defrontavam para ser conhecido o campeão.

Na temporada que abordamos a equipe campeã foi a do Ipê que tinha como treinador o ex zagueiro do Coritiba Augusto Klank e os jogadores Ari, Izael (goleiros), Rico, Nilceu, Nelson, Flori, Vivi, , Heitor, Ferreira, >Cirino, Zuzu, Orlando, Zé Carlos, e Nereu.

         Fiz este relato mostrando as três divisões no final do anos 50 inicio dos anos 60 para mostrar o elevado número de equipes em nosso futebol suburbano e nele grandes craques, tanto é que inúmeros galgaram posições em equipes profissionais como Coritiba, Atlético Paranaense, Ferroviário, Palestra Itália, Britania, Bloco Morgenau e Primavera, todos de Curitiba com participações em campeonatos profissionais. Bloco Morgenau e Primavera disputaram campeonatos amadores de Curitiba antes de chegarem, ao profissionalismo.  A solicitação da  Ana Claudia Chichon  e suas companheiros de equipe neste trabalho possibilitou mais uma viagem  pelo tempo de nosso futebol amador quando as equipes eram mesmo amadoras e os jogadores normalmente eram moradores da região do clube. Assim as agremiações representavam realmente o seu bairro de origem. Hoje infelizmente isto não existe mais e o nosso chamado futebol amador é na verdade um “profissionalismo” disfarçado. É o chamado futebol “marrom”.

.José Domingos Borges Teixeira

(Zé Domingos)

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