A PROPÓSITO DO DIA DO PROFESSOR,UM BELO TEXTO DE UMA PROFESSORA DO ENSINO BÁSICO

(encaminhado por zair schuster)
O texto, a partir do segundo parágrafo, é de autoria da professora do ensino básico, em Salvador, Bahia, Grasce Gondim. Faz com que todos nós nos conscientizemos da vergonhosa situação do ensino público brasileiro. Professores mal pagos, sobrecarregados, desamparados, à mercê da violência, desatualizados, sem programas de reciclagem, escolas caindo aos pedaços. Um fracasso, um vergonhoso fracasso e muito se espera que a presidente Dilma Rousseff consiga mudar este dramático quadro do ensino público.
“O maior objetivo do poder público em nosso país no setor educacional é achar culpados para o seu evidente fracasso. Não há sequer uma reunião a respeito de educação pública, em que não acusem os professores. Rubem Alves, sempre lido e citado nestes encontros, faz isto muito bem. Sorrateiramente, sem que percebamos muito, lá está ele a nos alfinetar. Fala bonito. Educar é amar. E nós não amamos. Massacramos os jovens. Não os deixamos pensar.
Mas estas criaturas assassinas de almas, não recebem nenhum castigo a não ser continuar atuando em escolas, onde fracassados não têm acesso aos bens culturais. Continuam atuando em escolas em que os culpados e vítimas não têm acesso ao conhecimento que transforma e faz refletir. Claro. Fracassos advêm de culpados. E culpados precisam ser encontrados e massacrados a não ser que eles façam parte do poder público. Estes podem.
Na educação existem culpados milenares: os professores. Precisam de castigos. E aí são castigados a rigor. São jogados em salas de aulas que há séculos não se modificam. A única mudança real foi a cor da lousa: era preta, ficou verde, agora é branca. Muita mudança! E os culpados? Os professores.
Nada fazem contra eles. Apenas são apontados. Apontam-nos sem piedade. Culpados pelo fracasso educacional precisam ser apontados antes que apareçam os verdadeiros suspeitos responsáveis. Antes que apareçam aqueles que escondem os recursos nas meias e nas cuecas ou desviam verbas. Brincam com o futuro da nação.
Num hospital, se um médico é acusado como irresponsável, ou melhor, responsável por uma vida que se foi, ele é deposto. Expulso. Cassado. Prescrito. Na educação, não, somos apenas CULPADOS. Não se investiga. Apenas se aponta a culpa. Os culpados somos todos nós. Quem? Os professores.
Culpados e abandonados em nossos postos de trabalho onde envelhecemos culpados ou heróis sem que ninguém faça uma verdadeira investigação a respeito de nossas ações. Deformando ou formando cidadãos, lá continuamos esquecidos. Esquecidos e eternamente apontados como culpados de um processo que não se desenvolve. Culpados.

Culpados, vamos levando o peso de um caos que talvez nunca se resolverá: o caos da escola pública.
Quero ir para a Finlândia. Quero participar de uma história de educação como protagonista do bem. Cansei de ser vilã. Parece novela da Globo. Somos Helenas e Helenos às avessas. Nascemos para matar.
Sonhei em participar de um grupo que ajudaria a mudar o Brasil. E sou apenas coadjuvante do mal. Sou professora da escola pública brasileira.
Participo de uma categoria que é constantemente acusada não ter coragem de mudar. De ter medo de inovar. De fugir das novas tecnologias (mesmo quando as novas tecnologias para nós apresentadas, já são muito velhas).
A culpa é nossa?
Sim… Somos culpados.
Não temos consciência de algo tão simples: ensinar é deixar pensar, e nós só tolhemos. Merecemos a forca. Salas super lotadas. Castigo. Salas sem nenhuma inovação. Castigo. Escolas sem bibliotecas. Castigo. Quando há biblioteca, sem bibliotecários. Castigo. Escolas sem o marcador para a lousa branca. Castigo. Salários ínfimos. Castigo. Culpados precisam ser castigados. E as vítimas? Ora… As vítimas virarão eleitores. E eleitores podem morrer antes de nascer para o conhecimento.
Aí vem Rubem Alves (quem por muito tempo amei) e diz que fazemos das escolas gaiolas. Ensinamos apenas o que ninguém quer aprender, o desnecessário. Mas mesmo acusados por pessoas tão ilustres, como o Rubem Alves, não saímos dos lugares onde estamos. Aqueles que nos acusam não nos acodem nem nos eliminam. Matamos almas e “impunes” continuamos a matar. Nenhum de nós perde o cargo. Mas os castigos são infinitos. E nesta avalanche de castigos vamos matando devagar e sorrateiramente.
Para provar melhor nossa culpa, o governo faz provas. E provam. Provam que o ensino público é o resultado de um processo fracassado e infame. Provam que nós, professores não sabemos o poder que temos, já que aceitamos tais barbáries. Provam que estamos acomodados e nos acostumamos a ser culpados.
Culpar virou a ação mais fascinante no setor educacional. Quem acusa com mais veemência os professores vira secretário da educação ou, no mínimo, técnico de secretarias. Em nosso meio, não é o sucesso que fazemos com os alunos que nos torna importantes, mas o jeito novo com que acusamos os colegas de classe.
Quando ensinamos, como fala Michel Serres, vamos a um lugar mestiço, onde quem ensina e quem aprende se desloca do lugar onde antes estava. Mas nós, professores, não sabemos disto. Coitados… Um bando de desinformados segue apenas errando. Culpados!

Michel Serres, cientista da evolução humana, afirma que o processo pedagógico, implica necessariamente numa mestiçagem, envolvendo mestre, aprendiz e o próprio conhecimento, o qual, segundo ele, é tecido como uma colcha de retalhos. Nas palavras de Serres: “Toda evolução e todo aprendizado exigem a passagem pelo lugar”. E o cientista está cheio de razão.
O conhecimento não está no vazio. O conhecimento, algo abstrato, está de certa forma em algum lugar. O conhecimento acontece quando o indivíduo pode aproximar-se dele. O conhecimento só acontece a partir da dúvida. E dúvidas precisam ser provocadas. Escolas precisam ser espaços que possibilitem os jovens à busca. Ninguém pesca sem rio, sem água. Ninguém busca conhecimento sem livros, sem recursos ou simplesmente amontoados num espaço sombrio como são nossas salas de aula.
Acusados e vítimas amontoados em espaços vazios de recursos e carregados de insatisfações e mesmices, é o que nos tornamos, alunos e professores da escola pública brasileira.
Ele, Michel Serres, diz que “ou mudamos a maneira de educar ou sofremos uma catástrofe”. Já estamos vivendo a catástrofe. A escola pública que abriga jovens é, há muito tempo, um lugar de descontentes: acusados e massacrados convivendo sem glórias. Catástrofe.
Acorda Brasil! Prende os verdadeiros culpados! Liberta os educadores para que tenham tempo de pensar e de promover o verdadeiro encontro com o conhecimento. Assim teremos uma tríade perfeita: professor , alunos e conhecimento.
Sem culpados. Onde todos os personagens experimentem a delícia que é o DESCOBRIR.

(Grasce Gondim
Professora do Ensino Básico em Salvador)

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