MINHA DECEPÇÃO
Por Nelson Valente
Nos dois últimos governos inventaram índices, condições de oferta, Sinaes, Conaes, IGCs, CPCs, CCs AIEs (Avaliação Institucional Externa), produziram especiosos e detalhistas, senão ineficazes, instrumentos de avaliações, além de Enade, Enem, provinhas e provões, decretos-pontes, reformas universitárias, dilúvios de portarias ministeriais, micro (ou nano) regulatórias, enfim, uma parafernália de mudanças.
Tudo muito bonito, mas efetivamente inócuo.
É um processo avassalador de modificações tão constantes que não permitem garantir um sentimento de estabilidade nem aos estudantes e suas famílias, nem aos gestores, nem aos docentes. E a sociedade certamente enxerga que a
educação deveria merecer um tratamento permanente. É um mistério na vida política brasileira saber porque conseguimos fazer isso com a economia e não conseguimos com a educação. Os governos brasileiros, federal e estaduais, têm alergia à ideia de órgãos autônomos, sejam agências reguladoras, sejam universidades, sejam conselhos educacionais. Por isso, por exemplo, universidades brasileiras não gozam de autonomia verdadeira. Acho que os políticos brasileiros pensam que autonomia seja equivalente à soberania. E soberanos, como sabemos, no nosso caso, são mesmo os políticos. Estamos longe de entender a importância de órgãos técnicos autônomos, mas responsáveis frente à sociedade e a seus representantes. Neste sentido, é de certa forma irônica observar que foi certa autonomia do Banco Central que deu ao Brasil a estabilidade da qual hoje se beneficia o país.
Alguns dirão: a expansão, que é uma política social; outros dirão: as cotas, que também é uma política social; outros, o Prouni (Programa Universidade para Todos), que também é uma política social. Mas, as universidades devem ensinar o quê? É para continuar formando quais profissionais na graduação? Nós queremos universidades de qualificação mundial no Brasil? Queremos universidades de ponta comparadas às de outros países? O que devemos ensinar aos estudantes universitários? Não se discute o ensino superior no Brasil, discute-se o acesso ao ensino superior, por isso, não existe uma política universitária, uma política educacional do ensino superior. Minha decepção nesse período é que não tenhamos discutido os objetivos do ensino superior no Brasil. Hoje, o Brasil é a 8ª, 9ª economia do mundo. Se pegarmos a lista de melhores universidades mundiais, não encontramos nenhuma universidade brasileira entre as 100 primeiras. Vemos alguma lá na 180ª posição, que são as paulistas, a USP, a Unicamp, seguidas pela UFRJ, UFMG. O Brasil nunca definiu se deseja ter uma grande universidade de qualificação mundial. A Coreia do Sul está lutando bravamente para constituir universidades de qualificação mundial. A China tem um plano de fazer 100 universidades de qualificação mundial até 2021. A Alemanha tem um programa de 2,5 bilhões de euros para a qualificação. O presidente francês deu autonomia para as principais universidades e exigiu que elas se qualifiquem. Portugal e Austrália também têm feito movimentos nessa direção. A Inglaterra tem pelo menos três universidades de classe mundial e os EUA tem um caminhão delas. E o Brasil, quer o que com seu ensino superior?
(*) é professor universitário, jornalista e escritor.




Jorge disse:
maio 20th, 2010
10:08
Agrada-me o texto do ilustre comentarista, em especialmente a sua preocupação com o conteúdo do ensino universitário e com o perfil do profissional graduado.
Entendo que as autoridades educacionais estão sendo pródigas em criar mecanismos de avaliação do ensino (Enem, Provão, etc.) porém não se mostram capazes de converter estas ações em intervenções efetivas que favoreçam a melhora do ensino.
Lembram, mal comparando, aquele velho professor que aplica muitas provas mas não ensina os conteúdos. Usando o jargão dos jogadores de futebol, jogam para a torcida mas não jogam para o time.
Somente discordo, com o devido respeito, da criação de alguma “Agência Nacional de Educação” com autonomia semelhante às desastrosas Anacs, Anvisas, Anatels, etc., que já se mostraram um entrave às mudanças de que o País necessita. São um poder paralelo e fora do alcance do voto popular. Podemos identificar uma série de defeitos na democracia, mas ainda não inventaram nada menos pior que ela.
Em tempo: o que seria a “certa autonomia” do Banco Central? Ou se tem autonomia, ou não se tem!
Celso Luiz Prudente disse:
maio 20th, 2010
17:25
O professor Nélson Valente é um grande especialista em Legislação Educacional ( além, de Jânio da Silva Quadros…). Parabéns ! O artigo revela a falta de objetivos do MEC.
zair schuster disse:
maio 20th, 2010
22:53
Eu me permito opinar esse tema do Nelson, bem postado por sinal, sob duas óticas: 1-o Brasil, não é de hoje, é o país de mudancistas e criativistas nesse “processo avassalador de modificações”,como bem diz o comentarista.Matam-se órgãos públicos de um lado e criam-se outros do outro lado.Siglas desaparecem. Ressurgem outras. Lembram-se do IAPI? IAPB? INM? IAPTC? Sunab? IBC? DNOS? IBPM? IAPC?
2-em relação à educação. É um tema muito diverso.Daria para falar muito sobre, por exemplo, o atoleiro imenso e volumoso em que se encontra o sistema educacional brasileiro. Com professores muito mal pagos, mal preparados, desprotegidos, escolas improvisadas, alunos rebeldes, transporte escolar precário. Políticos deveriam ser proibidos de se meterem nessa área. Segundo a Revista Veja, 60% dos diretores das escolas são indicados pelos políticos. Indicação politica, nesse caso, é um desastre porque não se leva em conta a competência profissional. Apenas 10% dos diretores são concursados.
Rui Barbosa já alertava, lá nos idos de 1883, que “a instrução secundária oferece ao ensino superior uma mocidade cada vez menos preparada para o receber”. Querem um país culturalmente desenvolvido e competitivo? Preparem melhor (e paguem melhor) seus professores.