UM CURIOSO ESPUMANTE DE JABUTICABA

Por Mauricio Tagliari*

Enviado por José Maria Pizarro

Há algumas semanas eu levantei a questão do uso de frutas brasileiras na produção de destilados de qualidade como questão de honra nacional. Nem me ocorreu, porém, pensar em um fermentado de fruta genuinamente tupiniquim.

Eis que, ao fuçar a prateleira de uma pequena loja de bebidas, deparo com esta garrafa de espumante, pasmem, de jabuticaba. Justamente a mais brasileira das frutas. Resistir, quem há-de?

Comprei, acalentei a ideia por um certo tempo e finalmente, com uma mistura de curiosidade e receio, experimentei (abaixo, comento a degustação). Depois fui pesquisar. E qual não foi minha surpresa ao descobrir esta empresa sui generis, Villardi Jabuticaba?

Sediado em Sumaré, a cerca de 100 km de São Paulo, este empreendimento familiar apresenta três produtos: um espumante, um licor e um vinho de sobremesa. Todos à base de jabuticaba, uma mirtácea (Myrciaria cauliflora (Mart.) O.Berg. (Myrtaceae)) encontrada quase somente no Brasil e em alguns trechos de Bolívia e Paraguai. Ainda não encontrei as outras duas bebidas. Mas, quanto à escolha da matéria-prima, tenho de admitir que faz muito sentido. Afinal, este fruto lembra tanto a uva no formato que sua árvore é chamada em inglês de Brazilian grape tree.

Sua casca é rica em taninos e antocianinas, na verdade em concentração maior do que as mais tânicas das uvas tintas, o que torna o fermentado resultante uma bebida extremamente saudável. Mas quem já mordeu o fruto sabe que, enquanto a polpa é doce e suave, ao mastigar a casca fica-se com a boca bem “amarrada”. Daí vem a questão: não deve ser fácil encontrar o equilíbrio ideal de uma bebida de jabuticaba.

Os apreciadores da fruta sabem que seu sabor é inigualável se saboreada imediatamente depois de colhida no pé. Após dois ou três dias inicia-se um processo espontâneo de fermentação e seu sabor se altera. Por conta disso, há ainda hoje, principalmente em Minas Gerais, o curioso hábito de “alugar” o pé de jabuticaba por hora. Uma pessoa ou uma família inteira pode se sentar embaixo da árvore e comer à vontade por um determinado tempo. Não é bom abusar, pois, como diz a sabedoria popular, “jabuticaba prende”.

Voltemos às bebidas. É tradicional a produção, no interior do Brasil, de licores à base de jabuticaba. Adicionam-se, porém, aguardente e açúcar. Até aí os Villardi não inventaram nada. Mas, ao que parece, ao chegar da Itália, onde produzia seus vinhos caseiros no início do século XX, a família encontrou nesse fruto uma inspiração para produzir também os equivalentes a partir do bago parecido com a uva. Não sei se foi a primeira ou a única tentativa. Provavelmente nenhuma das duas. Mas esta é a solitária notícia disponível da iniciativa de comercializar o resultado.

Um vinho de sobremesa que se assemelha a um fortificado, como o porto ou o marsala, seria um caminho natural. Um espumante doce também. Os Villardi parecem estar no caminho certo. Não creio, porém, que a jabuticaba possa vir a resultar em vinhos secos. Seriam extremamente tânicos.

O espumante, sejamos claros, não é bem um espumante. Está mais para um vinho frisante. Lembra um Lambrusco mais doce e mais tânico. Tem apenas 7% de álcool. Não tem perlage e sim uma carbonatação suave. Seu aroma é delicado e sua cor, única, mais escura do que o esperado de um vinho tinto de uva e levemente puxada para um marrom. Na boca, o ataque lembra, sim, de um vinho doce. Mas o final é claramente algo diferente. Não chega a ser amargo. É mais algo como um travo suave na língua. E, claro, lembra jabuticaba!

Por ser doce tentei harmonizar com pão de ló e um pedaço de panetone. Caiu bem. Mas acho que um bom bolo de fubá, daquele sequinho, faria um papel melhor. Tentei com queijos amarelos. Não foi bem. A melhor combinação surgiu, como esperado, com um gorgonzola. O contraste doce/salgado somado ao adstringente atenuado pela gordura resultaram muito agradável.

Por ser uma iniciativa pioneira, o “vinho” já merece nosso aplauso. Independentemente disto, os puristas que me perdoem, a jabuticaba fez minha cabeça. Vou atrás, com muita esperança, do vinho de sobremesa, chamado pela Villardi, a meu ver de maneira errada, de “tipo porto”. Aguardem notícias.

 

Mauricio Tagliari é compositor e produtor musical. Sócio da ybmusic, escreve sobre música e bebidas no blog www.maisumgole.wordpress.com e sobre música no http://ybmusica.blogspot.com. É co-autor do Dicionário do Vinho Tagliari e Campos.

 

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