OPINIÃO DE UM PADRE PETISTA

Por Elaine Granconato

Do Diário do Grande ABC 09/11/2009

Nascido em Tupã, padre Odair Ângelo Agostin trocou a pacata cidade do interior paulista para se transformar em uma liderança política de Diadema. Há 21 anos está à frente da Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes, no Eldorado, bairro mais populoso do município com cerca de 70 mil habitantes. Além do trabalho social, é conhecido por sua veia política. É um padre petista, mas não de carteirinha. “Sou militante há muitos anos”, confessa.

Porém, reconhece que o PT está perdendo a base, principalmente com as alianças feitas para governar. “Não tem como não se contaminar”, avalia. O padre teme que haja “debandada” dos filiados da sigla. E filosofa: “Jesus Cristo também era político”. A seguir acompanhe trechos da entrevista concedida ao Diário, que mesclou política, religião e até mesmo futebol.

DIÁRIO – Qual o seu partido?

PADRE ODAIR ANGELO AGOSTIN – Não sou filiado, mas sempre militei pelo PT.

DIÁRIO – Por que essa opção?

PADRE ODAIR – No geral, ainda digo que o PT é o melhor. Não por seu comando, mas pela história e ideologia.

DIÁRIO – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não representa o PT?

PADRE ODAIR – Não. O PT é maior do que ele, apesar de seu carisma. Admiro o trabalho, a coragem e a força desse menino. Um homem não pode estar acima do partido. Se ele morre, acaba tudo. Não é assim.

DIÁRIO – Qual ideologia do PT o senhor defende?

PADRE ODAIR – Hoje, infelizmente, o PT está longe de onde começou Porém, o que me atrai ainda é a origem dele. Nasceu no meio do povo trabalhador, sofrido e necessitado. Foi uma conquista. A igreja tem de estar próxima dessas pessoas. Os outros são partidos vêm prontos, com a ideologia de manter-se o poder.

DIÁRIO – A igreja tem tendência de se inclinar para partidos de esquerda. Os padres, principalmente, são simpatizantes do PT. Isso é real?

PADRE ODAIR – Sim, mas está mudando.

DIÁRIO – Como?

PADRE ODAIR – De uns dez anos para cá, a igreja tem se fechado e está ficando um pouco mais de fora, pois se decepcionou. Muitas lideranças que saíram da igreja para o PT, ao entrarem no poder se esqueceram da origem e deram as costas à igreja. Muitos que trabalharam nas bases usaram da igreja só para subir. Hoje, a formação dos padres segue linha mais espiritualista do que socialista. Na minha época, era teologia da libertação. Inclusive, fiz parte da última turma.

DIÁRIO – Defina teologia da libertação.

PADRE ODAIR – Era mais engajada no social. Hoje, está na linha espiritual, ou seja, o homem voltado mais para Deus, longe do social. A igreja carismática, como chamamos a linha direita da igreja, com os padres Marcelo Rossi e Fábio de Melo. Esse pessoal quer status, mídia, ao invés de ir à periferia. Incluo a chegada do novo papa. Já nós fomos formados em linha diferente, que também refletiu no PT.

DIÁRIO – Explique melhor.

PADRE ODAIR – O PT cresceu e esqueceu das bases. Hoje é cúpula. A base só é lembrada em época de eleição, igual aos outros partidos. Isso entristece.

DIÁRIO – O senhor percebe essa diferença?

PADRE ODAIR – Não tenha dúvida. Isso não é bom. O que diferenciava o partido era a ética, mas hoje está manchada por causa do mensalão, do José Sarney, entre outros. Sem aliança, não se governa. Candidato puro sangue, não se elege. Porém, com as alianças vem a contaminação.

DIÁRIO – Como é o trabalho político na igreja?

PADRE ODAIR – É preciso politizar as pessoas da comunidade. Trabalhamos fé e política. Jesus Cristo era político. Todos somos políticos. Cristo morreu fazendo política, defendendo os pobres e o social, como o próprio Evangelho.

Religioso é palmeirense da cabeça aos pés

Além de politizado e militante petista, padre Odair Angelo Agostin tem outra paixão declarada na comunidade: é palmeirense roxo.

“Quando o time perde, não dá nem para falar com o padre”, revela funcionária que trabalha na Secretaria da Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes, em Diadema.

Indagado desde quando é torcedor da equipe do Parque Antártica, o religioso não pensa duas vezes: “Desde o ventre materno”, ao acrescentar que, seu nome foi colocado pelo pai, fã do atacante Odair Titica (década de 1950).

Coincidência ou não, no dia da entrevista à reportagem do Diário o padre estava com calça, camisa e chinelos em vários tons de verde. Aliás, tudo em sua antiga casa remete ao Palmeiras, inclusive o lençol e a fronha.

Fanático, padre Odair fez a seguinte analogia envolvendo a pintura A Última Ceia, assinada pelo artista italiano Leonardo da Vinci. A reproduzida na igreja traz Jesus Cristo com as vestes em branco e verde. Porém, Judas, o traidor, é o único com as cores preto e branco.

Luiz Fanchin Jr

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