OS CORDEIROS DA FOLIA
Nelson Motta
Antes, o cordeiro era só um protagonista da fábula com o lobo, sempre atual, onde acaba comido. Ou então, metaforicamente, na Bíblia, como símbolo de pureza e sacrifício. Já na Bahia, os cordeiros têm uma missão crucial: são eles que seguram as cordas que cercam os trios elétricos no carnaval, isolando e protegendo os foliões do bloco, que pagaram caro pelos seus abadás. Agora os cordeiros se tornaram o centro de uma polêmica que está abalando o carnaval baiano.
A Prefeitura de Salvador divulgou um “Estatuto da Folia” que obriga os blocos a fornecerem calçados fechados, protetor solar, luvas, chapéu, camisas de algodão, três litros de água, alimentação adequada e duas caixas de sucos de frutas ou duas latas de refrigerantes por dia para cada cordeiro. Os donos dos blocos e dos trios dizem que não foram ouvidos e estão em pé de guerra, ameaçam até parar o Carnaval. Reclamam da generosidade oficial com dinheiro alheio. No final, o mais provável é que repassem as novas despesas para os compradores de abadá.
É dura a vida de cordeiro. A corda é grossa, áspera e pesada, e a massa atrás dela faz pressão violenta o tempo todo. Eles são milhares, recebem 10 reais por oito horas de trabalho, e, diz a Prefeitura, só água, uma caixinha de suco e outra de biscoito. Uns sofrem de dar pena, outros se divertem o tempo todo, cantam e dançam junto com os foliões, flertam, dão beijo na boca, já vi vários cordeiros esfuziantes na televisão dizendo que amam o seu trabalho.
Os cordeiros também são um dos pratos prediletos da demagogia dos políticos, turbinada pela natural verbosidade e veemência dos baianos. Como símbolo da exploração e da segregação, como barreira humana que separa os ricos, opressores e malvados de abadá dos pobres descamisados do outro lado da corda. O cordeiro se sacrifica para que a burguesia possa festejar sem ser incomodada. O populismo carnavalesco exige a festa sem cordas. Quem pagaria os trios elétricos, músicos, técnicos e produtores que fazem a festa acontecer? Os impostos de todos, até dos pobres. Só falta um mais exaltado propor a Bolsa-Folia.
Nélson Motta, jornalista
