HISTÓRIAS DE UMA CURITIBA INESQUECÍVEL
Enviado por Zé Domingos
Comecei a ler e logo me senti envolvido, me senti vivendo o que lia. Foi esta a sensação que tive quando acessei a mensagem encaminhada pelo Julio Militão. Verdadeiramente sensacional, pois as lembranças da Curitiba, amiga, solidária, companheira, a Curitiba de Helena Kolody, de Paulo Leminski e tantos outros, são preciosidades.
Caro Julio Militão da Silva, o nosso excelente advogado criminalista, nosso companheiro de lidas radiofônicas, o texto por você encaminhado é notável e o divulgaremos com extraordinário prazer. Muito obrigado pela colaboração e espero outras tantas. A sua participação neste nosso espaço só o enriquece e o valoriza.
Conheci Paulo Leminski, mas não tive muitas ligações com ele, mas sei da sua importante obra literária, inclusive alguns dos seus trabalhos. Sei da sua influência na história da cidade. Quanto à professora Helena Kolody, tive a oportunidade em conhecê-la quando fui residir no Edifício São Bernardo, na Rua Dr. Murici, entre as ruas Candido Lopes e Cruz Machado, isto lá nos idos de 1.968. Simpática, bonita, elegante, sempre bem vestida, se fazia destacar. Lembro-me que em determinado dia uma senhora que trabalhava na recepção do prédio me falou da Professora Helena e de suas obras. Depois conversamos várias vezes. Foi uma figura ímpar da nossa cidade. Tanto Leminski como Kodody são citados neste brilhante e interessante texto.
Acompanhem o material encaminhado pelo Julio Militão e se transportem numa linda viagem pelo túnel do tempo…
CURITIBA DOS MEUS TEMPOS DE GURI…
Enviado por Julio Militão
“Lembrando o homem de chicote, nas Mercês, era o “capitãozinho”. Eu era daqueles tempos”.
DE LEMINSKI E KOLODY
“Perdem-se para nós os caminhos que não guardam o timbre de nossos passos”. (Kolody).
Saudade da Curitiba dos meus tempos de guri. Do bete-ombro. Do jogo de tique. Do búrico. Dos trenes com as bolas de capotão, da Casa Walter.
Saudade do jogo do bafo com as Balas Zequinha.
Tinha Zequinha Médico, Zequinha Radialista, Zequinha Motorista, Zequinha Papai Noel. Esta era uma figurinha difícil. Quase não saía. Só os mais afortunados, conseguiam.
Tinha até Zequinha Ladrão, e como tinha.
Tinha até Zequinha Poeta, pintando os sonhos de todos e trazendo o céu para mais perto de cada um.
As figurinhas embrulhavam aquelas balas grudentas produzidas pelos Irmãos Sobânia, mas que adocicavam a vida da piazada.
Apagaram-se os balões que iluminavam as noites frias da Curitiba dos meus tempos de guri.
Era Balão Caixa, Balão Mimosa, Balão Cruz.
De todos os tamanhos e de todas as formas.
Tinha uns grandes, tão grandes que até os bombeiros eram chamados para ajudar na hora de acender a tocha.
Os soldados vinham, erguiam a escada, seguravam a copa, o baloeiro acendia a tocha, o fogo ardia e o balão subia, espargindo parafina incandescente sobre a Curitiba dos meus tempos de guri.
“Lá no alto o céu fazia, todas as estrelas que podia”, relataria Paulo Leminski.
“A própria lua cirandava e ria”, completaria Kolody.
Nem as pandorgas esvoaçam mais, pelos campos da Galícia.
Eram felizes os piás, na Curitiba dos meus tempos de guri.
Espremidos nas calças curtas erguidas até a mamica pelos suspensórios de matéria plástica, os piás levavam prá escola um punhado de bolachas Duchen e meia garrafa de Capilé.
Às vezes, Crush ou Mirinda.
Quando não, um suco de uva Grapete. Ou gasosa de framboesa da Cini.
Prá variar, Minuano.
Tinha uns que levavam Bidu-Cola ou Guaraná Caçulinha, com bolacha Maria.
Aos domingos, faceiros, no terninho de marinheiro da Maison Blanche, iam à matinada do Cine Ópera para ver Tom e Jerry.
As meninas, gabolas, enfeitadas em suas saias godê, da Joclena, e blusinhas da Mazer, uma loja infantil ao lado da Gomel, na “Rua dos Turcos”.
A Maison Blanche era de meninos. A Joclena e a Mazer, de meninas.
Piá nenhum admitia vestir o tal de “brim coringa não encolhe”, aquele tecido azulão grosso, especialmente para macacão de mecânico, que hoje chamam de Jeans.
As meninas vestiam tafetá ou veludo.
Os meninos, terninhos de casimira.
Quando muito, camisa volta ao mundo e calça de tergal.
Tinha, sim, muitos com calça de brim riscado, sempre felizes chutando bola descalços sobre as rosetas dos campinhos por todos os lados.
Até parece que fechou esse meu tempo de guri.
Fechou a Modelar. A Casa Rosa, a Casa Vermelha, a Casa Sade.
Saudade do William Sade, com quem lancei o programa Cortina de Veludo, pela Rádio Marumby, do Bilu Macedo, lá pelos idos de 58.
Não tem mais a Casa da Sogra do Aron Ceranko, presidente do Ferroviário, que também não tem mais.
Não tem mais a Casa da Pechincha.
Desapareceu o Louvre do Calluf, assim como nos deixaram os fraternos irmãos Munir e Padre Emir.
“Em vão, percorro a cidade com meus claros olhos de antes. As ruas não são as mesmas… E são outros os passantes”, suspira Kolody.
Não tem mais a Casa das Meias do telefone 66-6666, nem o 444 da Barão.
E a Casa Edith, acredite, ainda tem, mas os chapéus Prada não vende mais.
E a Três Coelhos, em que cartola se meteu?
Não tem mais Móveis Cimo.
O apito da Lucinda não apita mais.
Mudou a Casa Feres, “pequena por fora e grande por dentro”.
As Casas Lorusso, “suba que o preço desce”, também desapareceram.
Fechou a Casa Dico, a Joalheria Pérola, do Kaminski, a Importadora Americana, do Marcos Salomão Axelrud, que vendia o Simca Chambord e o Simca Rally.
Desapareceram o Frischmann´s Magazine, assim como o Chocolate Basgal, da Tiradentes.
Não tem mais a Tarobá, do Pedro Stier, em cujas vitrines o pioneiro Nagib Chede exibiu o primeiro programa de TV, no Estado do Paraná, projetado diretamente do último andar do Edifício Tijucas.
E o povo encantado via o Jamur em preto e branco, contando as notícias do dia.
Não tem mais o Cine Curitiba onde os piás trocavam Gibis do Capitão Marvel, pelos X-9 do Monte Hale.
Apareceu o the end das fitas do cine América, do Palácio, do Broodway, do Avenida, do Ribalta, do Oásis, do Rívoli, do Vitória, do Marabá, do Luz, do Arlequim, do Ritz.
Até os filmes do Morguenau e do Guarani chegaram ao fim.
Não tem mais o bar Pólo Norte, no fim do trilho do bonde da Colônia Argelina.
E o Lá no Lhum, da Barão?
E a Charutaria Liberty, na esquina da XV com Monsenhor Celso, para onde se mudou?
O Hermes Macedo, “Do Rio Grande ao Grande Rio”, que rumo tomou?
E o Prosdócimo, onde mamãe comprou a minha primeira Ralleig.
Era uma bicicleta preta, com frisos dourados e raios niquelados, importada. Inglesa. Quanto luxo. Sentia-me um Fittipaldi na boleia da sua Lotus. E o Sérgio Prosdócimo, hoje, nem sabe disso. Ele também era um piá, nos meus tempos de guri.
Não vejo mais as Óticas Curitiba, dos Irmãos Barbosa. Eram do Alcides, do Aristides e do Alcebíades.
Onde foi parar a Casa Nickel, que vendia Chevrolet?
Desapareceram as Casa Londres e a Ottoni.
O Lord Magazine, onde os almofadinhas compravam seus esporte-fino exibidos nos chás-dançantes de Medicina e Engenharia.
A Slopper também acabou.
Mesmo fim levaram Calçados Clark, Lojas Ika e Pugsley.
Acabou-se o Café Alvorada do Senadinho. Fechou o Ouro Verde, onde nasceu a Boca Maldita. Nem Café Marumby, nem Café Piraquara tem mais.
Apagou-se o neon da Caixa Econômica, na Praça Osório, com as moedinhas correndo e caindo no cofrinho?
E a farmácia Minerva, antiga, que vendia Zig e Mercúrio-Cromo.
E também Pasta Kolynos, Creme Dental Eucalol e Sabonete Lifebuoy.
Será que ainda tem Talco Ross? E o Rum Creosotado? E Auricedina? E a Pomada Minancora? E o Vinho Reconstituinte Silva Araújo? E o Regulador Xavier: “número um excesso; número dois, escassez”. (!).
E Antissardina. E o Creme Rugol. E as Pílulas de Vida do Doutor Ross, “fazem bem ao fígado de todos nós”.
Nem a Stellfeld, do relógio de sol sobrou, com suas prateleiras repletas de Cibalena, Varamon e Cafiaspirina, Glostora e Gumex.
Só o relógio de sol resistiu, como se a testemunhar os meus tempos de guri.
No Edifício Azulai ficava a Musical, onde comprei uma radiola marfim, para ouvir de Nat King Cole cantando “Catito”, nos long play da Chantecer.
Ali também ficava a loja de calçados Pisar Firme, onde trabalhava o meu amigo Umbelino. Que fim levou o Umbelino.
Fechou o Banco de Curitiba, quebrou o Banestado. E o Bamerindus?
Ave, Avelino. É verdade, o tempo passa, o tempo voa…
Cadê o Colégio Partenon, o Iguaçu da Praça Rui Barbosa, a Escola de Comércio De Plácido e Silva, cuja diretora Juril Carnascialli encantava os seus alunos pela sua fineza de trato e cultura herdada do iluminado Josef de Plácido e Silva. Muito obrigado Juril.
E o Colégio Cajuru. Por onde andarão as suas alunas, tão bonitas e invejadas? E as meninas do Sion com suas saias cor de vinho? E as normalistas do Instituto de Educação por onde andarão?
Acabaram-se as empadinhas da Cometa, os queijos da Casa da Manteiga do amigo Guido, hoje Meritíssimo Desembargador.
A coalhada da Schaffer, o Toddy da Leiteria Viana, e o pão sovado da Berberi, em que forno se enfornou?
E a pastelaria Ton Jan, da Marechal. Tinha pastel de carne e de palmito.
E também o especial, com ovo e azeitona.
Fechou a Churrascaria Bambu, como nos deixou o querido Dandi da
Tupã que desapareceu. Até a Caça e Pesca fechou.
Não tem mais o açougue Garmater nem o Francês.
E o piá de pedra fazendo xixi na frente do Posto Garoto, cresceu?
Acabou-se o Rabo-de-Galo do Bar Americano e não tem mais a Carne de Onça do Buraco do Tatu.
Nem o filé completo da Tingui.
Nem a dobradinha do Restaurante Rio Branco.
Do pastelzinho do Pasquale, nas manhãs dos sábados no Passeio Público, restou a saudade.
O Locanda Suíça desapareceu. Até o Gruta Azul sumiu.
O Jatão, em Santa Felicidade, travou a turbina e caiu. Desmoronou.
Nem a Maria do Cavaquino, nem a Gilda, nem o Esmaga ou o Osvaldinho perambulam pelas portas da Velha Adega, na Cruz Machado, ou pela frente da Gogó da Ema na Comendador.
Por ali onde andava o Saca-Rolha, nas tardes de sol, com o seu guarda chuva sempre fechado.
O Bataclã não desfila mais com o seu terno branco e cravo vermelho na lapela, pela frente do Fontana Di Trevi ou da Guairacá, na João Pessoa que virou Luiz Xavier.
Fechou a Curitiba onde nasci. Só não fechou este meu tempo de guri…
Não tem mais Leminski. Nem Kolody.
Dele, resta o lamento: “Esta vida é uma viagem; pena eu estar só de passagem”.
Dela, um alento: “Para quem viaja ao encontro do sol é sempre madrugada…”.
De mim, o consolo:
“Saudade! és a ressonância / De uma cantiga sentida, / Que, embalando a nossa infância, / Nos segue por toda a vida”.




jose carlos de miranda disse:
junho 27th, 2009
12:07
LINDO, MARAVILHOSO, QUE SAUDADES. ZE LEMBRA DESTA- VOCE E MAIS CONHECIDO DO QUE BALA ZEQUINHA- UM ABRACO. PROF. MIRANDA
ALOIZIO DURIGAN JR disse:
junho 30th, 2009
16:00
Olá Zé!(desculpa a intimidade)Ao te escutar na Rádio Colombo e depois ler ” Histórias de Uma Curitiba), lembrei de vc e retornei à minha época de guri( “idos” da década de 70), quando levantava cedinho, lá pelas 6:00h, para me arrumar para a aula no colégio D. Pedro II,lá no Seminário. Para ajudar, lembrei da lanchonete Susi ou Suzi(não sei a quem pertencia), que existiu na Tiradentes, quase ao lado da antiga farmácia Stellfeld, da lanchonete Itália na Carlos de Carvalho que,felizmente, até hoje serve uma pizza deliciosa no balcão,etc. Ao ler o comentário do Prof. Miranda , do qual fui aluno lá pelos “idos” de 80 e alguma coisa no antigo CEFET, lembrei que apesar de ser coxa branca,”eu e toda a sala torcíamos muito para o Colorado”,bons tempos eu era feliz e não sabia.Abraços.
Hugo F Collodel disse:
julho 1st, 2009
9:20
Ah que saudades dos meus tempos de guri! Do nosso CEFET querido, dos Jebens, do coral, das festas da nossa cidade. E tantas outras coisas e lugares que nos lembram aqueles tempos felizes e tanta paz, em que ser provinciano nos dá tanta saudade!
Parabéns Julio e Zé por nos propiciarem tão belas lembranças.
Hugo F
rosa disse:
setembro 26th, 2009
2:16
Voce lembra do Zequinha Ladrão? Aquele que foi preso assaltando um condomínio de parlamentares, no Rio de Janeiro ,não lembro o ano, mas foi entre 1986 e 1993.Natural de Curitiba, aprontava e nunca era preso porque ninguém o conhecia pelo nome verdadeiro Luis Carlos da Silva, seu apelido era Zequinha. Lendo “HISTÓRIAS DE UMA CURITIBA INESQUECÍVEL”,[ que adorei ], consegui imaginar o motivo do apelido Zequinha,só pode ser por causa da “Bala”, achei muito engraçado.Se voce lembrar do ano em que ocorreu esse assalto, por favor me de um retorno, tentarei encontrar no jornal da época, pois ainda quero tirar essa dúvida…. Um abraço
Ubiratan Caprilhone disse:
junho 28th, 2010
8:34
José Domingos, a história de uma Curitiba enesquecivel reativa momentos que tambem participei, uma volta ao passado. Onde o homem nú recebe a parceira na Praça 19 de Dezembro, Época que os animais ainda estavam no Passeio Publico, onde tinha a ponte que balançava, o cheiro de pipoca, o barulho das balanças. O onibus verde e amarelo, entravasse pela porta de tras e saia pela frente.Tinha os onibus mais antigos, onde o cobrador fechava a porta por sistema de alavanca. Maioria dos bairros tinha ruas com saibro, o centro, grande parte paralepipido, Tinha um unico bar Terraço, Confeitaria Iguaçu.
Alexandre disse:
agosto 18th, 2010
12:31
Caros amigos,
Estou fazendo um trabalho de faculdae sobre antigas marcas já extintas e gostaria de saber se alguém possui alguma imagem da Antiga pomada ZIG contra dores musculares.
Grato pela ajuda de todos.
Att.
Alexandre Machado.
armachado@click21.com.br
Martin Afonso Farias disse:
março 7th, 2011
23:34
Caro Zé, desculpe chamá-lo assim, mas o tempo passa e ficamos todos quase com a mesma idade. Tive o prazer de conhecer a maioria das pessoas e dos lugares citados, mas faltou o famoso “rolo de papel” aberto na calçada da Rua XV nos dias gelados de inverno que até isto não existe mais. A criançada colocando seus dotes artísticos para fora no sol que teimava em tentar aquecer aquele “arzinho” gélido. Minha mãe me levava todo o sábado para o centro para ver as vitrines (e como eu namorada, principalmente da Casa Sade, do Prosdócimo, da HM, da Disapel (lembra?),…), comer pastel de palmito na pastelaria da praça Generoso, e andando um pouquinho ia me acabar em um quindim da Confeitaria das Famílias. Isto era sagrado. Minha mãe caminhando comigo era pior que procissão, pois todos se encontravam na XV e o “minuto de prosa” ia acabando a manhã fria. Minha mãe, não sei se conheceu, era a Sra. Vera Vargas. Ela adorava poesia e trova, e eu fui criado neste meio cultural e fervilhante de Curitiba dos anos 70-80. Depois tive a honra de cursar o CMC e depois o CEFET, pois eu queria desvendar o mundo da eletrônica. 30 anos se passaram, mas até hoje não esqueço minhas matrículas. Curitiba limpa, organizada aonde no máximo que se via nos muros eram declarações de amor veladas. Saudade de um tempo rico, ordeiro e respeitoso. Da minha mãe, além da eterna saudade, conhecimento e outras lembranças que foram eternizadas em um Jardinete em sua homenagem. Obrigado por lembrar de coisas que o tempo às vezes teima em nos fazer esquecer, mas basta um fio da meada para tudo voltar em nossas mentes e nossas almas.
vilma disse:
dezembro 31st, 2011
4:29
Aloízio Durigan Júnior
Muito engraçado o comentário desse cara, dizendo no seu comentário que levantava cedo.
Tá mentindo Véio, você não tem vergonha?
Esse cara aí nada mais é do que um ladrão, sai roubando as joias perdidas das pessoas que perdem na praia com aquele aparelho RÍDICULO!!! Quero que esse desgraçado entregue meu colar.
Tenha um pouco de vergonha VÉIO, onde já se viu declarar que ama guerra e que foi criado ouvindo guerras, Esse fiscalzinho não passa de uma MERDA!!! Esse Véio envergonha nossa linda Curutiba!!!
Neris disse:
janeiro 26th, 2012
22:07
Oi Aloizio,
Bom te ver por aqui pois logo irei te encontrar em Marinhos para papear Guri.
Vc ainda esta com aquele Polo hatch prata ?